domingo, 11 de abril de 2021

Como humanos se tornam anjos

 


“(...) mais importante do que nascer é ressuscitar”. (Lygia Fagundes Teles)

Eu não ligava para o fato de estar fazendo Primeira Comunhão. Tinha 12 anos de idade. As aulas de catecismo eram sempre uma grande zoeira. Até o dia da cerimônia, que aconteceu na igreja de vidro da Lagoa, apelidada de aquário.

Era final do século XX, as religiões já mais para tumba do espírito, do que lugar de vida e comunhão. No entanto, havia uma mulher, a diretora da escola – a tia Darly, que conduziu a cerimônia. E que com uma atitude estranha chamou minha atenção.

Havia um brilho em seus olhos lacrimosos. Ela cantava com um sentimento profundo. Totalmente entregue diante de nós, desfrutando de um amor, de um prazer, de uma alegria, que só ela entendia do que se tratava. Como se tivesse bebido de um néctar exótico. 

E ela cantava, e as crianças riam, e ela cantava, e as crianças riam. Mas ela era uma chama viva que não se apagava. E o que cantou ali passou a fazer parte do meu repertório até hoje. Canto para os meus guias e eles cantam para mim.

Hoje sua imagem me aparece viva. Mais viva do que naquele tempo. Como se eu pudesse sentir. Beber do mesmo néctar. Compreendendo que uma comunhão com algo maior se celebrava naquele coração puro. Que fez semear. E se irradiou do tempo para a eternidade.

Mariana Montenegro

abril de 2021

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