Havia
uma 'coisa' sob as águas do rio. Ora desvanecida, inerte, ora em angustiado desassossego. O que era, ao certo, não se sabia.
Do veio desceu uma corrente forte que levou tudo o que encontrou pelo caminho. A ‘coisa’ foi puxada até a
crista, à tona da superfície indubitável. Então se viu.
Tinha
um pesado fardo às costas. Esfarrapada, coberta de crostas, algas e toda uma espécie aderente
que lhe era imprópria.
Visto que era uma pessoa. Um homem. Na lama, soterrado, recôndito.
Enquanto
se limpava, retomava a consciência. Arrancava o que estava agarrado a si, e chorava, ao se imaginar, ao ver sua imagem turva e esquálida.
Mas
eram lágrimas purificadoras. Caíam lavando a alma ressequida. Livrando-a da lassidão, da opacidade víscida.
Ao
final, era nuvem a sua cor, de tão diáfana. O semblante foi voltando. O viço. Os olhos
tornaram a mirar as luzes.
Sem mais lançar sombras, o homem foi se revelando. De falso opaco, espelho maculado, num apurado, fiel transparecer.
Mariana Montenegro
fevereiro
de 2021

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