segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Purificação

Havia uma 'coisa' sob as águas do rio. Ora desvanecida, inerte, ora em angustiado desassossego. O que era, ao certo, não se sabia. 

Do veio desceu uma corrente forte que levou tudo o que encontrou pelo caminho. A ‘coisa’ foi puxada até a crista, à tona da superfície indubitável. Então se viu.

Tinha um pesado fardo às costas. Esfarrapada, coberta de crostas, algas e toda uma espécie aderente que lhe era imprópria.

Visto que era uma pessoa. Um homem. Na lama, soterrado, recôndito.

Enquanto se limpava, retomava a consciência. Arrancava o que estava agarrado a si, e chorava, ao se imaginar, ao ver sua imagem turva e esquálida.

Mas eram lágrimas purificadoras. Caíam lavando a alma ressequida. Livrando-a da lassidão, da opacidade víscida.

Ao final, era nuvem a sua cor, de tão diáfana. O semblante foi voltando. O viço. Os olhos tornaram a mirar as luzes.

Sem mais lançar sombras, o homem foi se revelando. De falso opaco, espelho maculado, num apurado, fiel transparecer. 

 Mariana Montenegro

fevereiro de 2021

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