A
abuelita mais anciana traça um círculo no chão. Tira os sapatos e adorna-se com
a galhada do cervo. Enquanto o vento soprando ao longe apaga as pegadas na areia. Outras abuelitas chegam faiscantes revirando a poeira dos tempos. Elas sabem a hora de abrirem suas asas, como as aves sabem a hora de migrarem
para o sul.
Prontas entram compassadas no círculo. Entoam os sons sagrados. Rodopiam. As causadoras de tremores, deslocadoras de contornos nos mais longínquos continentes. Deixam-se preencher como um cálice, da água pura, saciadora e sanadora.
Até o rito inebriar, atear fogo e consumir o cálice das avós por inteiro. O círculo perder a sua circunferência. Tudo se tornar uma
imensidão oceânica na visão do falcão. E as abuelitas cantarem a ária do cálice solvido, na irradiância sem raias do coração.
Mariana Montenegro
janeiro de 2021

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