quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

As Deusas também evoluem


Elas marcaram num bar à beira da praia depois de séculos sem se verem. Beberam, prosearam e cantaram os mitos. Perséfone pede uma bebida forte, enquanto sua mãe, Deméter, algo mais suave. Ártemis chega das caças remando, e Afrodite desponta das espumas do mar. Com Atena e Héstia dançam ao som das ondas e das esferas.

Além de desfrutarem do momentum, as Deusas têm O propósito de recriar o mundo. Juntas sopram um único mito: O Mito da Inteireza. Da coesão de tudo o que existe, sem arestas para a separatividade. Uma demonstração de fé na capacidade humana de síntese e de plenitude. Mas elas nem sempre foram assim. As Deusas também evoluem. 

Teve o tempo da fé dirigida a elas, de quererem exclusividade nos seus cultos, de brigarem por poder. Hoje, a soberana Hera não ensina mais a reinar sobre os outros, mas a como ser senhora de si. Assim elas são as mesmas enquanto se fazem outras. E para levarem as boas novas aos corações humanos invocam as Musas. 

Calíope, empunhando a trombeta, e Euterpe, com seu lirismo sussurra aos ouvidos dos ouvidos: - A única lei é o amor, e o único pecado, o julgamento. Inspirando também novas perguntas; no lugar de “ser ou não ser”, sugerem: - O quanto eu integro de mundo? E colocando no lugar do “ou”, o sagrado “e”. 

Assim as Deusas sopram a integração de todos os seus atributos no interior da alma humana.

Mariana Montenegro

janeiro de 2021

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

As abuelitas

 


A abuelita mais anciana traça um círculo no chão. Tira os sapatos e adorna-se com a galhada do cervo. Enquanto o vento soprando ao longe apaga as pegadas na areia. Outras abuelitas chegam faiscantes revirando a poeira dos tempos. Elas sabem a hora de abrirem suas asas, como as aves sabem a hora de migrarem para o sul.  

Prontas entram compassadas no círculo. Entoam os sons sagrados. Rodopiam. As causadoras de tremores, deslocadoras de contornos nos mais longínquos continentes. Deixam-se preencher como um cálice, da água pura, saciadora e sanadora.  

Até o rito inebriar, atear fogo e consumir o cálice das avós por inteiro. O círculo perder a sua circunferência. Tudo se tornar uma imensidão oceânica na visão do falcão. E as abuelitas cantarem a ária do cálice solvido, na irradiância sem raias do coração. 

Mariana Montenegro

janeiro de 2021

domingo, 24 de janeiro de 2021

Viagem interior

 

As paisagens externas foram esgotadas. A relva ceifada pela vista cansada do mundo. Caminhou tanto até perder o espanto e o encanto de tudo. Já nos estertores, pôs-se a ler os poetas da mística árabe e indiana. Quando uma mensagem de Kabir atingiu em cheio seu peito:

“Não vás para o jardim florido, Ó amigo! Não te voltes para lá; é em ti que se encontra esse jardim/ Escolhe teu lugar entre as mil pétalas do interno lótus, e contempla desse posto a beleza infinita”.

Súbito despertou do cansaço. Mudou o olhar e o mundo mudou. Assim, como num passe de mágica, como se apaixonar. Criara uma abertura em sua escuta, possibilitando a chegada da mensagem seguinte: “You are looking from what you are looking for”. 

Não pudera dar o crédito, pois não se lembrava do canal do deságue ou do poço. Só sabe que veio da fonte, tendo tocado a sabedoria em seu coração. A morada para onde, enfim, ela passou a ter o desejo de ir. 

 

Mariana Montenegro

janeiro de 2021

sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

Diário de jardinagem

 

Colhendo couve de bruxelas-Québec/2012

"Viajar ensina a viver: como fluir, ouvir a intuição, se abrir". Assim escrevi no meu diário de jardinagem de 2012. Quando, nos meses quentes do Canadá, trabalhei com agricultura orgânica e biodinâmica. Foi uma viagem com objetivo de aprendizagem e imersão na cultura ecológica. Relendo o diário, estas são algumas das passagens:

O Sol raiou no interior do Canadá francês. - Bonjour à tous! Abro a janela. Sinto o clima, as energias atuantes. Consulto o calendário lunar. Dia de semear? Dia de colher? Dia de fazer preparos? Dia de quê? Minha intenção, como elemento humano, é a de favorecer a sinergia global do meio.

- Cogumelos à vista! Rápida decomposição das folhas. As novas bem verdes. Frutos desenvolvidos. Bons sinais! Sigo observando. São muitas interações ao redor; entre as plantas, o solo, os micro-organismos. Entre as energias cósmicas e as energias terrestres. No jardim que como um organismo produz em si mesmo sua constante renovação.

Teve o dia de plantar blueberries e árvores do mapple. Seres esses, com uma função bem clara: embelezar e adoçar a vida de outros. - C'est merveilleux! Passando por processos de expansão e recolhimento, da germinação à frutificação, da decomposição à fermentação. Na luz e no escuro, no calor e na umidade.

Assim como viajar ensina a viver, a jardinagem me ensinou sobre o propósito humano na terra. No seu ritmo. O humus. Os polinizadores. Sur la route... 

 

Mariana Montenegro

janeiro de 2021

domingo, 17 de janeiro de 2021

A moça no labirinto

 

A moça estava perdida no labirinto do vale. Dava muitas voltas no mesmo lugar procurando a saída. Mas ficava era cada vez mais desorientada. Seu coração batia forte, e ela oscilava entre a pena de si, e a raiva do mundo. Clamava aos céus para sair daquela situação, por encontrar o caminho de volta.

Mas parecia que apenas a raiva, o medo e a tristeza lhe ouviam, porque só eles a acompanhavam. Pedia calma ao céu, enquanto pisava irascível a terra; ou pedia por coragem, mas se deixando dominar pelo medo. Até que, afoita, tropeçou numa pedra e caiu. Por sorte não se machucou, mas decidiu parar.

Olhando atentamente a sombra que as plantas faziam no chão, teve um estalo. Deu-se conta de que tudo o que vibrava estava no sentido contrário à sua procura. De que não agia em conformidade com o que pedia. E que os seus esconjuros, tão comuns, tinham a si mesma como destino. 

(A afamada Lei da Atração operando inequívoca).

Então levantou e caminhou de maneira diferente. Quando, já calma, deixando-se guiar pelo coração, a saída apareceu na encruzilhada com a subida da montanha. Podendo escolher retornar, decidiu seguir na escalada até o alto do vale. 

A cada passo vibrando não mais contra, mas em harmonia com seu propósito.

Mariana Montenegro

janeiro de 2021

                                                                                                                    

sábado, 16 de janeiro de 2021

Os Viajantes do Tempo

 

Os Viajantes do Tempo chegam da morada do sopro e do intento. Leves e velozes, na velocidade da luz. Apesar de saberem do futuro, não se pautam para agir, nem controlam os rumos dos acontecimentos. Deixam-se viver sempre no agora em conexão com a Vida Maior. 

Se vivessem como se vive na 3D, decerto cairiam do alto de suas vibrações. Mas como esses viajantes vêm em paz, emanando amor, trazendo uma brisa suave no bater de suas asas, eles fazem soar belas melodias nos seus instrumentos de bambu. 

Quando viajam pelo mar, formam ondas até a praia. Quando por terra, rolam as pedras ao sopé da montanha. Vindos do plano das causas trazendo o alento, a chance, o guia para a saída da caverna e a vista do que há. 

O conhecimento da prodigiosa liberdade dos terráqueos, de poder escolher, entre a marionete, crente da arbitrariedade mas manipulada por cordéis invisíveis, e a flautinha de bambu, espaço para a passagem do sopro criador e suas belas melodias.

Mariana Montenegro

janeiro de 2021

sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

Azulzinha

 


Era noite. Sentia-me triste e fui caminhar pelo jardim. Desejando respirar um ar parei em frente a uma planta. Era uma planta qualquer, não identificada. Nesse contato, fui melhorando até me sentir bem e revigorada. Captando alguma emanação dela – e dos seus elementais -, que levaram embora a tristeza que eu carregava. Sem que eu soubesse que planta era aquela, que mistério era aquele.

Noutro dia, clareado, voltei ao jardim para vê-la. Ela estava repleta de belas flores azuis. Fiquei admirada e descobri que todos os dias ela florescia – a Azulzinha, uma flor perene. Desde então, passei a lhe dedicar tempo e cuidados e ela me dedicou sua sabedoria...

de flor que não alcança a morte como destino; ainda que passe pelos ciclos de vida-morte-vida, como tudo, naturalmente, passa. Mas que a sua destinação - para aonde evolui - é o florescimento; pois que Ela É o que Ela É.

Foi assim. No jardim. Que fui acolhida e aprendi com a Azulzinha sobre persistir florescendo. A bela flor que diz, pela voz de seus elementais, doucement e resoluta: - Nada nem ninguém valem a pena de eu deixar de florescer sequer por um dia.

Mariana Montenegro

janeiro 2021