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| Parque Lage/RJ |
Dias antes do início da pandemia fui ao Parque Lage fazer um trabalho com as flores. Seguindo os passos de Edward Bach, procurava flores com a intenção de conhecê-las e extrair delas uma mensagem de cura. Duas flores me chamaram atenção. Uma delas me transmitiu, por suas características visíveis e por vias sutis, impressões de "liberdade, espaço e oxigenação". Em ressonância com a outra flor, senti algo relacionado à "simplicidade e ao essencial".
Saí dessa experiência com a lembrança da importância do essencial, e disposta a colocar isso na minha vida diária. Passando a nutrir a ideia de valorizar as coisas simples, de ser feliz com o que eu tenho e sou agora. Curiosamente, pouco tempo depois, veio a pandemia, e o que era um projeto pessoal tornou-se uma realidade coletiva. De repente, a reclusão social compulsória fez com que todos passassem também a ter que se circunscrever ao essencial e ao momento presente.
A pandemia acarretou o arrefecimento dos planos pessoais, restringiu os movimentos, mas ela também nos levou a ter que nos voltar para dentro de casa e para dentro de nós. Ela detém nossa diástase, mas não pode impedir a vivência interior de cada um. Na verdade, é isso o que ela nos oferece de positivo, o autoconhecimento e a possibilidade de viver o infinito em potencial que existe dentro de nós.
Desse infinito potencial, a cada momento vem à tona uma emoção, um pensamento, uma sensação ou uma intuição diferentes. Existe assim todo um campo de trabalho. Apesar da condição aparentemente limitada, muito se pode aprender e aprofundar em períodos de reclusão. É uma oportunidade de abrirmos as portas da percepção; cultivar a presença, respirar conscientemente, fazer a nossa Yoga. A reclusão pode ensejar uma imersão em vastos conteúdos psíquicos e noéticos. Dentre esses conteúdos, me vêm à mente:
"Eu Sou a porta aberta"; lugar de vacuidade plena e fértil, do ser não-fixo. A porta aberta que ninguém fecha é um espaço de trânsito, para o fluxo, em que tudo está estavelmente presente no movimento incessante. A porta aberta da alma é também a porta estreita da inteligência, pois para atravessar há que se ter entendido e integrado o paradoxo (a coincidência dos opostos). Em tempos de pandemia, de reclusão, podemos finalmente descobrir essa porta e abri-la. E receber inúmeros convidados, percebendo melhor antigos habitantes, até descobrindo novas afeições e uma ética do cuidado.
"Eu poderia viver recluso numa casca de noz e me considerar rei do espaço infinito". Essa exaltação shakespereana mostra bem a percepção de uma alma que se alargou. Dilatou-se tanto por dentro que é capaz de sentir-se livre ainda que circunstancialmente limitada. Ao se descobrir uma vida rica interiormente que se vive em plenitude. Quero ser uma porta aberta ao espaço infinito, para tornar a nos conhecer assim: alargadas e desabrochadas; até o simples essencial que repousa delicado no jardim da existência.
Mariana Montenegro

Mariana! Parabéns pelo texto belo e cheio de vida!
ResponderExcluirSinto-me assim também, alargada, adorei esta palavra, define bem.
Me sinto meio que na contramão.. estou mesmo e apesar da densidade do momento, da situação, dos lutos sem despedida, das insegurancas implicitas ao momento eu tenho encontrado alegria e gratidão pela vida, pela grande oportunidade de estar conscientemente vivendo e fazendo de cada dia um dia especial e gratificante. Estou confiante e segura de que esta tudo certo.
Grande beijo com muitas saudades!
Um convite à REFLEXÃO! Viajamos tanto pelo mundo afora mas, estranhamos qdo as oportunidades para viagens interiores aparecem. Buscamos tanto participar de " Retiros" mas, qdo as oportunidades de " Retiros não- buscados" surgem, estranhamos.Pois, entremos pela Porta Aberta,caminhemos, viajemos rumo ao nosso mundo interior, mergulhemos: eis uma oportunidade PRECIOSA de auto- descoberta. GRACIAS pelo CONVITE à Porta aberta: entremos!
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