quinta-feira, 23 de abril de 2020

Não ser uma estranha dentro do próprio corpo

    
      


       É de vital importância viver dentro do próprio corpo. A sensação relacionada ao estado de presença é termômetro para medir meu grau de saúde e plenitude. A encarnação, o ato de ir entrando em energia, em consciência, em alma dentro do corpo físico, é um processo. Quando adultos, teoricamente, já teríamos passado por esse processo. No entanto, o que se vê comumente são adultos vivendo fora dos seus corpos físicos, afogados nas emoções e perdidos num turbilhão mental.

     Quando deixamos o corpo físico desabitado, ele se torna propenso ao mau estar, à doença, às correntes que o mobilizam de forma involuntária. Ao mesmo tempo, há que se compreender que, em alguns momentos da vida, viver fora do corpo é uma maneira que encontramos de fugir da dor e das perplexidades da existência. Clarice dizia: "Perder-se, às vezes, também é caminho". Também acontece porque somos levados a crer que a felicidade nunca está aqui, sempre está num outro lugar. Seguindo a dinâmica de fugir da dor e de procurar o prazer. 

     Perder-se pode, às vezes, ser caminho, mas fugir dificilmente será. Segundo Roberto Crema, "perder a cabeça é perder a própria sombra", a qual não deveríamos fugir ou descuidar. Se estamos na companhia da nossa sombra, é possível canalizar as forças que jogam em nós, ao invés de perder a cabeça em euforia (eu fora). Mas com o passar do tempo, com o acúmulo de conteúdo psíquico, com as experiências e suas cargas, a falta de autocontrole leva a um tormento ainda maior e de proporções generalizadas. 

     A pior sensação que conheço é a de habitar um corpo estranho, é não reconhecer o reflexo no espelho. Deixando-o desabitado ficamos propensos a todo tipo de influências. Viver no astral ou no mental, sem conexão com o físico, mantêm-nos vagando soltos pelo espaço, sem um ground. Mas sempre é possível recomeçar, e é bom que sempre se recomece. A cada novo dia, a cada novo luar. Para nascer de novo ancorada, reencontrando-se integrada e em paz com o reflexo no espelho. 


Mariana Montenegro

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