quarta-feira, 13 de maio de 2020

Mais íntima liberdade




Ao despertar me deparo com o livro dos sonhos para ler. Também acordo com assuntos mal resolvidos de dias anteriores. Sinto-me uma bola de neve, pesada e acumulada de coisas. Começo o dia me sentindo feito um camelo. Pressinto o peso do mundo nas costas, desde tempos imemoriáveis, de outros lugares e de muitas pessoas. Quero me esvaziar para conseguir recomeçar, embora esteja tão plena de passado e prenhe de futuro.

Cumpro deveres, limpo a casa, puxo válvulas, olho o relógio. A fase do camelo é a da conservação, mas assim como cada dia encontra seu ocaso, cada fase vive seu declínio. Depois de muito carregar o passado, com seus valores convencionais e sua obediência servil, passo por uma metamorfose. É quando o camelo se transfigura em leão, no caminho mostrado por Zaratustra. Digo um feroz não, solto o primeiro grito de liberdade e posiciono-me firmemente. Por isso, - não mate o leão -, aconselham-me. Aceite sua existência, faça dele um aliado. Mas claro, não esqueça nunca sua natureza e vigiai sempre.

Apesar da força do leão conquistada, é imperioso antever o caminho da fruição. Pressagio uma jornada que me levará ainda mais além de assenhorear-me do poder. Chego ao entardecer, ao crepúsculo da civilização. Lá, num lusco-fusco, intuo um mergulho e um salto num dia fora do tempo, e escuto uma insinuante voz entoar melodias de um novo mundo. É chegada a criança - a terceira etapa da minha metamorfose. Meu máximo potencial de plenitude.

Minha divina criança prescreve seu próprio bem e mal. As fases da conservação e da destruição são superadas. No entanto, o camelo e o leão são integrados, seguindo ao meu lado, como a águia e a serpente. É chegado o eterno instante do fruir na transformação. É chegado o momento altaneiro das danças, dos jogos, da criação e da espontaneidade. Ouço a voz de Nietzsche: “Amo os que só sabem viver em declínio, pois são os que transpõem. Amo os que desprezam com intensidade, pois sabem venerar intensamente”.  

E é assim, com intenso desprezo e veneração que me metamorfoseio na criança. Ela que é a sabedoria de viver; o saber que se sabe sorvendo. Ela que é só abertura, energia vital, o porvir autopoiésico que faz tecer a si num continuum. Sendo ela, sou minha própria autoridade no livro dos sonhos. Torno-me capaz de ouvir a exata linguagem do corpo. Fulguro no agora entregue à experiência.

Finalmente posso dizer: sou singular entre singulares. Engendrada da irrupção do processo de individuação e autopoiese. Se ser ou não ser? Ser e não ser! Eis o sagrado “e”. Nunca se caber, sempre transbordar. Navegar na imprecisão da vida dilatando a velha alma, abarcando sempre mais mundo. Eis que amanheço entre pessoas todas elas cheias de valor, num universo todo a ser desfrutado. É na idade da criança, e quando então me julgarem louca, que terei atingido minha mais íntima liberdade.  

Mariana Montenegro
Ensaio extraído do livro "Singulares" 
2019 

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