Ao despertar me deparo com o livro dos
sonhos para ler. Também acordo com assuntos mal resolvidos de dias anteriores.
Sinto-me uma bola de neve, pesada e acumulada de coisas. Começo o dia me
sentindo feito um camelo. Pressinto o peso do mundo nas costas, desde tempos
imemoriáveis, de outros lugares e de muitas pessoas. Quero me esvaziar para
conseguir recomeçar, embora esteja tão plena de passado e prenhe de futuro.
Cumpro deveres, limpo a casa, puxo
válvulas, olho o relógio. A fase do camelo é a da conservação, mas assim como
cada dia encontra seu ocaso, cada fase vive seu declínio. Depois de muito
carregar o passado, com seus valores convencionais e sua obediência servil,
passo por uma metamorfose. É quando o camelo se transfigura em leão, no caminho
mostrado por Zaratustra. Digo um feroz não, solto o primeiro grito de liberdade
e posiciono-me firmemente. Por isso, - não mate o leão -, aconselham-me. Aceite
sua existência, faça dele um aliado. Mas claro, não esqueça nunca sua natureza
e vigiai sempre.
Apesar da força do leão conquistada, é
imperioso antever o caminho da fruição. Pressagio uma jornada que me levará
ainda mais além de assenhorear-me do poder. Chego ao entardecer, ao crepúsculo
da civilização. Lá, num lusco-fusco, intuo um mergulho e um salto num dia fora
do tempo, e escuto uma insinuante voz entoar melodias de um novo mundo. É
chegada a criança - a terceira etapa da minha metamorfose. Meu máximo potencial
de plenitude.
Minha divina criança prescreve seu
próprio bem e mal. As fases da conservação e da destruição são superadas. No entanto,
o camelo e o leão são integrados, seguindo ao meu lado, como a águia e a
serpente. É chegado o eterno instante do fruir na transformação. É chegado o
momento altaneiro das danças, dos jogos, da criação e da espontaneidade. Ouço a
voz de Nietzsche: “Amo os que só sabem viver em declínio, pois são os que
transpõem. Amo os que desprezam com intensidade, pois sabem venerar
intensamente”.
E é assim, com intenso desprezo e veneração
que me metamorfoseio na criança. Ela que é a sabedoria de viver; o saber que se
sabe sorvendo. Ela que é só abertura, energia vital, o porvir autopoiésico que faz tecer a si num continuum. Sendo ela, sou minha própria autoridade
no livro dos sonhos. Torno-me capaz de ouvir a exata linguagem do corpo. Fulguro
no agora entregue à experiência.
Finalmente posso dizer: sou singular
entre singulares. Engendrada da irrupção do processo de individuação e
autopoiese. Se ser ou não ser? Ser e não ser! Eis o sagrado “e”. Nunca se
caber, sempre transbordar. Navegar na imprecisão da vida dilatando a velha
alma, abarcando sempre mais mundo. Eis que amanheço entre pessoas todas elas
cheias de valor, num universo todo a ser desfrutado. É na idade da criança, e
quando então me julgarem louca, que terei atingido minha mais íntima liberdade.

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