quinta-feira, 23 de abril de 2020

Bem mais precioso




O tempo é o meu bem mais precioso. Em geral, trata-se o tempo como um hábito destinado à produção e aos afazeres diários, sem levar em conta o quanto ele é imprescindível à vida de uma maneira mais essencial. O sistema global preza o imediatismo, a correria, o sucesso numa fração. E quando podemos parar, simplesmente mantemos esse padrão, ao invés de experimentar outra forma de viver o tempo. Uma que dê tempo ao tempo, que seja sincronizada com os ritmos naturais, a respiração, o fluxo da energia vital.

Acredito que a sabedoria se manifesta em resposta ao momento tal como ele se apresenta. Exige atenção, ausculta e empatia. Existem várias formas de responder a uma mesma pergunta. A resposta correta não é a pré-fabricada, mas aquela capaz de responder ao que se revela num ensejo que traz componentes inéditos e inusitados. Por isso regras e preceitos pouco refletem a realidade. Outro aspecto importante para a relação com o tempo, é pensar um pensamento de cada vez e reconciliar-nos com as pausas e as mudanças.

O passado está aqui e o futuro já chegou. Essa percepção budista traz a consciência de que só existe o agora, e que basta cuidarmos bem desse agora, para resolvermos o passado e para prepararmos melhor o futuro. Uma consciência estável depende da vivência ancorada no instante, nem apressada, nem pressionada. Segundo Meher Baba: “Uma mente muito rápida e inconstante está doente. Uma mente vagarosa, constante e estável está sã. Uma mente que está quieta é divina”.

A mente conhece essa tranquilidade quando experimenta pausas. É a pausa que dá uma sensação mais profunda de tempo, de espaço e de quem somos. Ela nos devolve a acuidade da impermanência dos fatos da vida, dos papéis que exercemos, dos eus que somos transitoriamente. E nos alça a outra dimensão da própria realidade, em que o tempo deixa de ser apenas contado, para ser um tempo de qualidade e profundidade.

Nos filmes de Hayao Miyazaki, como A Viagem de Chihiro, a pausa está sempre presente. É o que o japonês chama de Ma, o vazio. Os símbolos usados para escrever Ma são a combinação dos caracteres Portão/Portal e Sol. Assim entendido, o vazio não é um simples vácuo, ou uma mera ausência encerrada em si mesma, mas uma presença no instante que abre espaço para que algo se manifeste. Por isso, a pausa é sagrada no Oriente, onde não se foge do vazio e do silêncio atrás de constantemente se preencher o tempo e os espaços.

O tempo é o tecido da vida e deve ser aproveitado de maneira que nos humanize, como exaltou Antonio Candido. Não se limita à ação e ao movimento, pois também serve à contemplação e ao vazio. Nesse equilíbrio, é possível ter uma relação mais revigorante com os ciclos. “O momento não tem tempo”, dizia Leonardo da Vinci. Dessarte, procuro medidas de tempo mais valorosas, que sejam confiáveis, como meu pulso cardíaco profundo, e que sejam mais humanizantes, como o tempo dedicado aos afetos e ao conhecimento.

Mariana Montenegro
Ensaio extraído do livro "Singulares", 2019


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