O tempo é o meu bem mais precioso. Em
geral, trata-se o tempo como um hábito destinado à produção e aos afazeres
diários, sem levar em conta o quanto ele é imprescindível à vida de uma maneira
mais essencial. O sistema global preza o imediatismo, a correria, o sucesso
numa fração. E quando podemos parar, simplesmente mantemos esse padrão, ao
invés de experimentar outra forma de viver o tempo. Uma que dê tempo ao tempo,
que seja sincronizada com os ritmos naturais, a respiração, o fluxo da energia
vital.
Acredito que a sabedoria se manifesta
em resposta ao momento tal como ele se apresenta. Exige atenção, ausculta e
empatia. Existem várias formas de responder a uma mesma pergunta. A resposta
correta não é a pré-fabricada, mas aquela capaz de responder ao que se revela
num ensejo que traz componentes inéditos e inusitados. Por isso regras e
preceitos pouco refletem a realidade. Outro aspecto importante para a relação
com o tempo, é pensar um pensamento de cada vez e reconciliar-nos com as pausas
e as mudanças.
O passado está aqui e o futuro já
chegou. Essa percepção budista traz a consciência de que só existe o agora, e
que basta cuidarmos bem desse agora, para resolvermos o passado e para
prepararmos melhor o futuro. Uma consciência estável depende da vivência
ancorada no instante, nem apressada, nem pressionada. Segundo Meher Baba: “Uma
mente muito rápida e inconstante está doente. Uma mente vagarosa, constante e
estável está sã. Uma mente que está quieta é divina”.
A mente conhece essa tranquilidade
quando experimenta pausas. É a pausa que dá uma sensação mais profunda de
tempo, de espaço e de quem somos. Ela nos devolve a acuidade da impermanência
dos fatos da vida, dos papéis que exercemos, dos eus que somos transitoriamente. E nos alça a outra dimensão da
própria realidade, em que o tempo deixa de ser apenas contado, para ser um
tempo de qualidade e profundidade.
Nos filmes de Hayao Miyazaki, como A
Viagem de Chihiro, a pausa está sempre presente. É o que o japonês chama de Ma, o vazio. Os símbolos usados para
escrever Ma são a combinação dos
caracteres Portão/Portal e Sol. Assim entendido, o vazio não é um simples
vácuo, ou uma mera ausência encerrada em si mesma, mas uma presença no instante
que abre espaço para que algo se manifeste. Por isso, a pausa é sagrada no
Oriente, onde não se foge do vazio e do silêncio atrás de constantemente se preencher
o tempo e os espaços.
O tempo é o tecido da vida e deve ser
aproveitado de maneira que nos humanize, como exaltou Antonio Candido. Não se
limita à ação e ao movimento, pois também serve à contemplação e ao vazio.
Nesse equilíbrio, é possível ter uma relação mais revigorante com os ciclos. “O
momento não tem tempo”, dizia Leonardo da Vinci. Dessarte, procuro medidas de
tempo mais valorosas, que sejam confiáveis, como meu pulso cardíaco profundo, e
que sejam mais humanizantes, como o tempo dedicado aos afetos e ao
conhecimento.
Mariana Montenegro
Ensaio extraído do livro "Singulares", 2019

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