quinta-feira, 27 de maio de 2021

A vigília da oca

Estava na oca à noite. Naquele horário propício à vigília. Aberta à instrução indígena. O silêncio era grande e de uma presença forte. Sentia que nos planos internos algo se passava. O trabalho consciente era, para com meus gestos e pensamentos, não poluir o silêncio, o ar puro e os aromas que ali estavam. Não perturbando a floresta eu contribuía com a vigília.

Como uma árvore eu me sentia. Estava lá sentada, mas com a consciência em pé, erguida da terra ao céu. Como deve ser. Com os ciclos e os ritmos em acorde. A seiva da vida circulando em mim seus nutrientes. Os venenos que levava em minhas correntes iam sendo eliminados e transformados no remédio de que precisava.

A oca era lugar de cura e de instrução. Quando o silêncio trouxe a palavra do xamã, era assim: - Veja o campo unificado que a ti e a tudo abarca. Sem fenda, sem fresta. Atente ao lapso, aos voos perdidos. Desperte. Respeite a mãe terra e montanha. Cante com teus irmãos pássaros as árias dos bosques e dos rios. Ame o fogo da vida e se deixe queimar. 

Quando ouvi tal palavra senti um arrepio nos ossos, estalados com o calor da voz, com a tamanha força do vento. Mas meus ouvidos, mais dóceis com o passar do tempo, foram capazes de escutar. Então a noite foi caindo, o silêncio abriu as estradas que davam no espaço e nas estrelas, e pude abraçar a imensidão do cosmos.  

Nesse momento, a oca era o globo terrestre. Dentro dele uma nova humanidade era preparada pelas árvores e pelos xamãs. Um planeta sagrado era gestado, com respeito à vida única em sua dinâmica complexa de equilíbrio entre todas as comunidades viventes. No conclave que formavam, o ser humano estava presente; finalmente, reintegrado.

 

Mariana Montenegro

maio de 2021

 

terça-feira, 25 de maio de 2021

Ensaio: O opus alquímico do Livro Vermelho

 

Pintura de Jung

“Ser aquele que tu és é banho do renascimento”

JUNG

JUNG TEVE A CORAGEM de pisar nos terrenos lamacentos em que seus pacientes frequentemente se afundavam. No Livro Vermelho (2009) ele faz uma narrativa arquetípica de imagens do seu inconsciente, visitando as profundezas de onde emergem as forças e os símbolos mais contrastantes e perturbadores. Num esforço de síntese, trarei aqui apenas alguns pontos que considero importante amplificar e cabíveis de compartilhar.

O primeiro deles diz respeito à coincidência dos opostos. Da ideia que Jung retoma de Heráclito, de que um dia tudo se reverte em seu contrário. A balança penderá para o outro lado, quer com a consciência do "Princípio da Polaridade"- de que os extremos se tocam e da conciliação dos paradoxos -, quer com os sintomas violentos e guerras sangrentas que sobrevém da negação do outro polo. “Mas antes que o ser humano possa ascender para a luz e o amor, há a necessidade da grande batalha”, diz Jung. (p.178)

Outro ponto é o confronto entre o “espírito do tempo”, que o mantinha preso à racionalidade e às aparências, e o “espírito da profundeza”, que guiava sua intuição aos caminhos da alma. Mas foi o "espírito da profundeza" que apontou a direção que ele seguiria: da descida. Mostrando como existe um caos primordial dentro de cada pessoa, e que cada um precisará se ver com esse seu caos. Não o fazendo, o que acontece é o investimento deste inconsciente caótico sobre o mundo e as pessoas.

No entanto, se disposto ao autoconhecimento, em momento auspicioso, quando bem gastos os chinelos, o sujeito chega à sua metanoia (a transformação). No eterno retorno, vir a ser é recriar-se; como a libélula, a borboleta, o escaravelho, vivendo seus mitos de transformação e renovação. Ainda para aclarar esse processo vai dizer: “O eu é o sujeito apenas de minha consciência, mas o si-mesmo é o sujeito do meu todo, também da psique inconsciente”. O si-mesmo, aí traduzido, é o famoso “self”, que integra aspectos e instâncias para além da unilateralidade da consciência, promovendo a saída do estado de identificação para a diferenciação e a singularidade. 

Cada oposição confrontada é um aspecto não conciliado que deve ser integrado, se o indivíduo aspira a sua totalidade psíquica. Na abertura de Jung a seu mundo interior inconsciente, ele desenvolveu a linguagem simbólica, à maneira mesma do inconsciente, que fala por meio de símbolos. Pois o que é o mundo que vivemos senão a imagem que fazemos dele? E no Liber Primus se afirma: “A riqueza da alma consiste de imagens”. (p.118) Assim que a capacidade de encantar a vida é a mesma que nos faz vivê-la em sua plenitude. Pois o que não encantamos perece e morre.  

“(...) quem observa de fora aquilo que acontece só vê o que já passou e que sempre é a mesma coisa. Mas quem olha de dentro sabe que tudo é novo. As coisas que acontecem são sempre as mesmas. Mas a profundeza criadora da pessoa não é sempre a mesma. As coisas não significam nada, só significam em nós. Nós criamos o significado das coisas”. (p.138)

Perceber o que atua do inconsciente é fundamental para saber o que nos move, para não sermos arrastados e para não sairmos arrastando os outros. Para não viver a base de sintomas e possessões. Mas de entender quais mitos estamos encarnando. Que forças atuam causando essa ou aquela reação exacerbada. Se somos feitos de elementos conflitantes, precisamos nos ver com isso, e abandonar de uma vez a covardia de investir no próximo nossos conflitos.

MAIS AMOR E MUNDO IMAGINAL É PRECISO - para quem quer crescer como a Árvore da Vida; da raiz à copa, da profundeza às alturas. Desde a fase mais obscura do inconsciente, quando desce a noite, o nigredo; passando pelo estágio do albedo, o cisne branco, a purificação; até o rubedo, a fênix vermelha, a iluminação, quando as oposições se dissolvem. Então se verá uma pessoa renascida que aprendeu a navegar em seu inconsciente, pelas oscilações naturais, no jogo de forças, mas como um dançarino, como o grande alquimista do Livro Vermelho.

 Mariana Montenegro

maio de 2021

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Referências: O Caibalion, Tao Te Ching, As Pedras Filosofais, Heráclito, Nietzsche e Jung. 


 

quinta-feira, 20 de maio de 2021

O Povo da Inteireza

 


No centro do povoado havia um totem presentificando os reinos que os indivíduos encarnavam:

 Mineral, Vegetal, Animal, Humano e Angélico. 

Uma imagem do que os constituía que mantinham sempre viva. 

Nas praças, populares se reuniam para seu jogo tradicional, o quebra-cabeças.

Na educação cada qual era investido em seu próprio caminho. Tudo era feito com arte; as pessoas encontravam o que amavam fazer e seguiam suas vocações. 

Um guia bem-aventurado do local, perguntado sobre o que acontece quando se atinge a plenitude almejada, respondeu:

- Você se torna humano.

Conquista essa que povos primitivos, como o Povo da Mercadoria (que viveu por volta da pré-história da Noosfera), não lograram. 

Hermann Hesse, o lobo da estepe entre os primitivos, inscreveu a insigne mensagem no pórtico da cidade: 

“Em vez de reduzir o teu mundo, de simplificar a tua alma, terás de recolher cada vez mais mundo, de recolher no futuro o mundo inteiro na tua alma dolorosamente dilatada”.

Assim se fez o Povo da Inteireza: 

à imagem do totem, integrando cada reino, buscando sua centralidade e totalidade. 


Mariana Montenegro

maio de 2021

domingo, 9 de maio de 2021

A Rainha

 

A Rainha Coroada de Estrelas, como era chamada, conduzia seu pequeno reino em harmonia. Em suas terras aldeavam peregrinos e mutantes, que viviam cautos do movimento inerente à vida. Todo outro era um espelho de si, e toda guerra tornou-se obsoleta, circunscrita às arenas esportivas e aos dramas teatrais.

Pela conciliação das polaridades dentro de cada ser a paz se deu. A douta ignorância se estendia a todo o reino, desde a Rainha até o povo; todos eram aprendizes na terra. Entre os monumentos de seu governo, fulgia o Ateneu da Consciência; um projeto de investimento no potencial humano de plenitude.

Sempre aberta, a obra majestosa era o reduto do silêncio e dos arquétipos, de onde emanavam os símbolos que engendraram os mitos de origem do povo. Mas, para chegar lá, era preciso partir de dentro de si, do próprio ser interior. Pois a via de acesso não se encontrava na mente ou em nenhum outro canto do mundo senão no coração.

Quanto aos atos decisórios da Rainha, seguiam fielmente os três princípios: ético, estético e noético. E a justiça em cada ato era resultado da sua escuta. Do cultivo do silêncio interior que a tornava capaz de bem olhar e bem valorar o que fosse necessário. Assim, ela governava. Junto com seu povo. De composição múltipla e lealdade em comum às estrelas.

Era com essa direção e essa consciência que todos viviam em harmonia.  

 

Mariana Montenegro

maio de 2021