terça-feira, 30 de março de 2021

Dignidade da condição

 

Certa noite, o homem que havia domado o touro sonhou com o centauro. Era a primeira vez que esse animal mitológico aparecia em seus sonhos. Toda a cena, a imagem, as sensações eram estranhamente vivas e reais. Sentia que anunciavam um novo desafio.

A conquista do touro foi um processo longo, duro, que exigiu muita perseverança. Já o centauro exigiria outros métodos que não o adestramento, sendo ele civilizado e inteligente; metade animal, metade humano. 

Só não estava claro o que o sonho denotava de seu mundo real. Foi então que veio uma tormenta, que abalou as estruturas de sua pequena cidade. As pessoas saíram às compras levando toda a comida para estocar nos dias difíceis que se seguiriam.

Não pensavam em quem viria depois, que encontraria as prateleiras vazias. Teve o instinto de agir igual, mas lembrou da humanidade vitoriosa do centauro. Que o fez deter o instinto de sobrevivência, seguir a inteligência do racionamento, a consciência da solidariedade.  

Como o centauro, fez prevalecer o humano em si. Lembrou-se de que além de instintos de sobrevivência e perpetuação - é feito de valores, virtudes e de sabedoria. Sabia então, que, como veio, a tormenta iria embora. E assim foi. Sem que ele perdesse a dignidade da sua condição humana.

Mariana Montenegro

março de 2021

domingo, 28 de março de 2021

A conquista do touro

 


Um homem ouve falar sobre um touro que andava solto. Resolve então ir à sua busca, que tem início quando encontra suas pegadas. No primeiro vislumbre do touro encanta-se dele, mas não enxerga, aquela distância, a sua cabeça, não vendo o animal por inteiro.

Quando consegue a aproximação, percebe o quanto indomado é, e com ele trava uma luta. O homem é arrastado e cai. O touro escapa inúmeras vezes. Muitos esforços são infrutíferos, tamanha a desproporção de força.

Mas com perseverança, depois de muita luta, ele consegue domar e orientar o touro. Que deixa de ser ameaçador para se tornar um companheiro. No entanto, o homem ainda precisa manter a atenção constante no touro, com a firmeza e a disciplina necessárias.

Finalmente quando o homem consegue montar o touro, sai cavalgando a caminho de casa. Alegremente toca sua flauta marcando o compasso. Livre da necessidade da rédea e da atenção constante, o touro agora sabe quem manda e quem obedece.

E, então, o foco do homem mudará.

Mariana Montenegro

março de 2021

sexta-feira, 26 de março de 2021

A Balança da Justiça

A mulher chegou desabalada a seu destino. Tão logo bateu à porta, tão forte badalou o sino. À entrada um guardião a recebeu cortês. Trazendo em mãos uma balança, que tinha de um lado uma leve pena, e o outro, ele oferecia para que ela pesasse o seu coração. 

O guardião anuncia que o coração deve pesar menos do que a pluma para se atravessar o portal. Aturdida com a condição imposta, ela se detém em frente ao pórtico e pergunta perplexa a si mesma:

 - Como meu coração poderá pesar menos do que uma pluma?!

Não poderia sequer imaginar tal coisa. Pacientemente, o guardião lhe diz: "Você terá o tempo de que necessita. Porém, não há outra maneira de cruzar o portal; sem que o seu coração seja mais leve do que a pena". 

Frente ao incontornável desafio ela se vê tendo que refletir um pouco.

Quando então, voltando-se com atenção e honestidade para seu coração, percebeu os pesos que ali estavam; o que havia de nocivo, o acúmulo de emoção represada e amargada há tempos. Vendo as imagens de todo um acervo empoeirado formando um amontoado nebuloso em seu peito. 

Escutou com as palpitações de seu coração a elegia. 

Reconheceu que para atravessar aquele portal tudo o que acumulou não servia. 

Faltava o essencial, a única coisa que lhe pedia.

Mariana Montenegro

março de 2021

 


quinta-feira, 25 de março de 2021

Sherazade, a professora

 

UM DIA uma professora chegou a um povoado que vivia em guerra. Tinha a notícia de que os professores que passaram por ali não obtiveram sucesso e foram embora. Já não havia mais mestre que acreditasse na educação daquela gente. Ainda assim, e disposta ao risco, ela tinha um estratagema.

Até a sua chegada, os alunos só se interessavam por conhecimentos instrumentais de guerra, como manejar as armas, etc. Não havia código de ética que os guiasse, a luta podia ser suja, até brutal. Não lutavam conservando qualquer dignidade. Tal era o cenário em que se encontrava Sherazade, a professora.  

Ela sabia que o plano deles era fazer o que fizeram com os outros antes dela. Porém, a professora também tinha um plano. Todos os dias, após receberem de seus instrutores o conhecimento técnico que desejavam, ela contava uma história diferente. A cada novo dia narrava e interrompia deixando a continuação para o dia seguinte.

Foi se criando no povoado uma sadia curiosidade própria dos aprendizes. Passaram a querer ouvir mais e mais, já que ela nunca terminava de contar. E assim, além de ir garantindo a sua sobrevivência entre eles, a professora foi despertando percepções e visões outras de mundo. Conta-se que alguns chegaram até a se interessar pelas artes cavalheirescas. 

Passadas mil e uma noites, o povoado continuava a ouvir, mas com outros ouvidos. As guerras não terminaram, pois era um povo guerreiro. Aconteceu foi que passaram a lutar de maneira diferente. A primar tanto pelas técnicas de combate e pela vitória quanto pela conduta frente às batalhas. E foi assim que a professora venceu o seu bom combate pela educação e pela civilização. 

Mariana Montenegro

março de 2021

quarta-feira, 24 de março de 2021

A Cidade Celeste

 

(baseado numa alegoria da tradição zen)

“Mudar o mundo é mudar o olhar”

Roberto Crema

A mulher decidiu seguir sozinha. Deixando tudo para trás. Sua cidade, parentes, amigos. Em busca da Cidade Celeste. Estava decidida a ter outra vida, ansiava por outro mundo, onde houvesse a justiça e o bem que sonhava. Assim pôs-se em marcha.

Na estrada, num dado momento, precisou descansar. Deitou-se ao abrigo de uma sombra e recostou a cabeça sobre o fardo. Mas antes, deixou seus sapatos virados na direção da Cidade Celeste, para garantir que o cansaço e o vento não a desorientassem de seu destino.

Foi então que ao cair da noite, um espírito brincalhão, vendo a mulher dormindo, virou os sapatos na direção da cidade de onde ela vinha. Depois do gracejo foi-se embora sorrateiro, e a mulher tomou, ao acordar, sem saber, o rumo de volta.

Enquanto caminhava, pensava: “- Como se parece esse caminho com o da minha cidade natal!” Mas continuava dessabida em regresso. Então, acreditando mesmo que se tratava do caminho da Cidade Celeste, passou a olhar a tudo com outros olhos.

Passou a admirar a beleza que antes não via, encantando-se com a paisagem do alvorecer. Quando encontrou os primeiros habitantes via-os como anjos benditos e brilhantes. Seu coração palpitava e ansiava com a proximidade do centro da “Cidade Celeste”.

Até que reencontrando velhos amigos, espantada disse: -“Como vocês se parecem com a gente da minha antiga terra!” Ela já tinha ouvido falar que encontramos entes queridos no céu, só não imaginava que eles seriam assim tão parecidos com aqueles da sua terra.

Tendo voltado a casa, entre os parentes, estava muito feliz, com sua família celestial. Ela os amava com amor divino - via neles toda a sua luz e a sua beleza. Passando finalmente a viver na cidade celeste dos seus sonhos, na luz do seu olhar.  

Mariana Montenegro

março de 2021

quinta-feira, 11 de março de 2021

O pontífice

 (homenagem a Hildegard von Bingen)


Havia a história clássica dos dois pássaros pousados na árvore.

Um olhava para o céu e outro olhava para a terra. Se um atuava, o outro se ocultava. Enquanto um observava, o outro experimentava os frutos... Eram totalmente opostos em suas naturezas e disposições. Cada qual no seu mundo, vivendo incomunicáveis e sempre distantes. Nunca podendo tocar um ao outro. Assim os tempos se repetiam.

Até o dia em que surgiu um terceiro pássaro.

Que logo notou a distância dos dois. Então se aproximou deles, colocando-se entre um e outro. Sendo capaz de se comunicar com o pássaro-observador, ele acolhe suas ideias originárias. Já do pássaro-desfrutador, suas experiências sensíveis.

Conhecendo eles a fundo, o terceiro vai aos poucos construindo uma ponte entre seus mundos.

De modo que com o passar do tempo, um entoará cantos que o outro será capaz de escutar. O primeiro pássaro verá os frutos amadurecem em doces frutos de sua própria essência. Na realidade transitória do segundo choverá água da fonte eterna.  

Eles passam então a se ver, a se admirar e a viver juntos. Cada qual conservando sua natureza, mas estando em paz, com outra qualidade e em harmonia – a cantar simultaneamente suas diferentes notas. Assim foi que os tempos se renovaram.

Quando o terceiro pássaro abriu suas asas, eram tão grandes que capazes de acolher com seu amor os céus e a terra.  

Mariana Montenegro

março de 2021