terça-feira, 22 de dezembro de 2020

Origens

 

Como se chega ao fundo? Por mergulho ou por naufrágio? 

Como, em geral, não se mergulha por livre e espontânea vontade, chega-se, mais comum, por naufrágio. 

Assim que um olhar de farol viu, ao longe, uma embarcação se abater num agitado mar. Sendo sorvida nas ondulações e afundar. Para a capitã do barco cair no mais profundo e abissal oceano. Passando dos limites da enseada às remotas origens.

Lá se encontrou no ventre da baleia. Adentrou uma caverna submersa com memórias em hieróglifos ancestrais. Reconheceu (de sonhos) animais marinhos atlantes. Viu rebrilhar o sol interior do subterrâneo da terra. 

Tudo isso decorreu num átimo. E adiante foi esgueirando-se a cavar. Bebeu da sabedoria dos guias de Gaia. Sentiu palpitar o coração do oceano em seu peito, tornado leve e largo. 

Numa experiência brincante com uma pedrinha reluzente, passou a não mais se enunciar de lugar ou posição cerrada. De repente, podia estar em todos os lugares e assumir qualquer perspectiva. 

Quando, por graça da ancestralidade marinha, tornou a emergir, era sem identidade de superfície. Ungida nas águas mais profundas desaguou renascida na altitude mesma do infinito.

Mariana Montenegro

dezembro de 2020

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

VIDA

 


Vida, eis que abro meus olhos para ti. Antes, meu peito, descampado, reclinara-se assim, macerado. Sem ti, só sentia arrepios frios na pele e assombros n’alma. Tu que estavas aqui, mas eu não. Tu que estavas em mim, mas eu, deletéria. Outrora deixaste rastro, e por dentre uma relva rugosa, resvalando em espinhos, ouvi teus burburinhos: - Dou-me gratuitamente a ti, por que me negas?

Acontece quando minha sombra vaga desencontrada de mim (preciso mantê-la sempre por perto). Se perco a capacidade de ouvir o menor ramo estalar. Em todas as posições cerradas que entristecem. Ao menos, sei. Assumo o erro ao ponto da tragédia. Desmonto os disfarces. Ai de mim e das minhas quimeras. Mas há a hora fatal, em que me rendo, e essa é minha virtude. Não raro, termino demovida da torpeza até a metamorfose. 

Então me inclino diante de ti, Vida. Já esgotada das fugas em vão. Ferida das máculas condoídas. Tantos caminhos escarpados sobre a relva ou sob o firmamento cravavam. Mas à guisa da flor do querer peço que me convide a tua presença. Não fugirei em nenhuma hipótese. Mesmo no eclipse da razão do mundo ou em meio às peripécias dos ciclos minguantes.

Pois que tu és pacote completo: magma, ebulição, contágio. Quero sentir teu cheiro doce e acre, tua presença feérica e também a mais simples. Afirmo-te enfim e em mim. Fronteira alargada sou eu! Tu, embebida em amor, és o ar renovado das manhãs. Todo o brilho e o fulgor da aspiração. E o mais alentado de tudo, Vida, é que tu és meu dom de existir, e eu, teu regalo, teu oco, em que podes transbordar. 

Mariana Montenegro

junho de 2020

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

Dracena e a Festa Elemental

Numa manhã tomava café ao lado da janela olhando as árvores como de costume. Quando escutei um sussurro: “Ela floriu”. Olho e vejo a Dracena florida, o que me encanta e me espanta, pois não houvera pensado conscientemente nessa possibilidade. Nutria apenas esperanças de que ela se recuperasse, pois a tirei de um ambiente nocivo, tratando dela e a colocando em boas condições.

Durante algum tempo, achei que estava estacionada, conseguindo pouco notar de seu crescimento. Até que ela foi se recuperando, e para minha surpresa, um dia, insinuara um florescimento, e, no outro, o pleno desabrochar com um perfume fortíssimo, como jamais senti, talvez apenas próximo da Dama da Noite do quintal de minha avó. O perfume tomava toda a sala e, para surpresa ainda maior, era o convite para a festa dos Devas da natureza.

Com o perfume da Dracena um clima de festa foi se chegando. O cenário era de tempo fresco, chuva fina, passarinho se aninhando sobre a persiana, pequenos insetos polinizadores, bons ventos, clima perfeito para celebrar o pleno desabrochar das flores. Os Devas vinham com roupinhas vermelho e verde, com sua fala ligeira, a dançar e a pedir músicas. Bebiam o néctar da flor, a pura cerveja deles, sentindo-nos todos inebriados com o aroma.

Dracena atraiu a todos. A festa rolou. A alegria tomou conta da casa. Esses construtores e celebrantes oficiais das grandes festas da natureza, por vezes até psicodélicas, gostam de pedir músicas para se alegrarem. Cantei para não os decepcionar: “So let the sunshine in face it with a grin/open up your heart and let the sunshine in”. Fazendo-os rir à beça e dançar. Era um momento especial para todos, de vitória da natureza, de comunhão.

Os Devas nos convidam a criar boas condições através de nossas emanações, para que eles possam captá-las e se aproximarem de nós. Eles contam que os humanos se afastaram deles. Não sentem a natureza como a um ser vivo e sensível. Mas dizem que se nós recuperamos essa consciência podemos desabrochar como as flores. E eles podem se juntar a nós nas nossas obras e nas celebrações de suas realizações. Convivendo juntos nessa atmosfera de alegria e riqueza, sem faltar cerveja e amor.

Mariana Montenegro

Dezembro de 2020

 

O Alquimista Surfista

O Alquimista Surfista sai de bermuda e pé no chão pisando no asfalto quente até a praia acompanhado do seu amigo cão Fred. Sai aos tropeços, tonto, e em jet lag, depois do voo pelo mundo do fluxo de consciência de "As ondas", de Virginia Woolf. Mas é sujeito experimentado das fossas, que gosta da sensação do fluxo intenso. 

Como filósofo da natureza que é, conhece as alturas e as profundidades, e, como surfista, sabe navegar nas perturbações sabendo-as condutoras de energia. Mas é Fred, a voz da razão da dupla, que sabe a hora de voltar à superfície. Sempre invoca com seus latidos o momento certo. Logo que chegam à praia, montam o ponto, de onde observam as vagas e os ventos. 

Num ritmado, as ondas quebram nas pedras do Arpoador, que amanhece esmaltado de um azul-lilás. Quando na maloca, faz as diluições arquetípicas da matéria primordial. Inscreve secretas lâminas com formas simbólicas. Em meio aos mistérios pouco traduzíveis, usa a palavra como matéria de alquimia. Como revela:  

- Existe a palavra útil, muito direta e estrita, que comunica sem ruídos - a palavra assentada, com raiz. E existe a palavra inutensílio, mais larga e profunda, que adentra regiões abissais e nas alturas toca a matéria dos sonhos - a palavra soprada, alada. Dando uma amostra de alguns de seus contraditórios concomitantes.

No crepúsculo vermelho, os amigos fazem o ritual do tambor para desatar a noite que desce e o novo dia que se seguirá. O Alquimista Surfista transfigura-se no rito do toque do tambor à beira mar. Sente a maresia acariciar sua face bronzeada num gesto de delicadeza feminina. Na contemplação serena das ondas revoltas do mar, experimenta o elixir da obra do dia.

Mariana Montenegro

dezembro de 2020

                                                                                                                    

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

Afeição do instante (o jogo da presença)

        

          Eis uma mulher e seu saber. Sobre ela não sei, sobre seu saber diz um tanto. Aquém do tudo, pois tudo não pode dizer. Pela lei dos contrastes argumenta que, enquanto algo está à luz, algo deve estar à sombra. Saber ocultar é tão importante quanto saber revelar. Mas abrindo o jogo, vem evidenciar: - Não sou idêntica a mim mesma. 

        Tenta se coincidir numa fotografia, no entanto, à revelia, é sempre outra. Pressente no instante antes do clique da máquina a almejada coincidência consigo. Então consegue tomar uma feição aparentada - assim, pressentindo sob telas. Ela conta que tem por Deus o instante, ou no instante, o seu Deus. Por isso, louva a presença, com tudo o que nela está contido. 

Labora confabulando intensidades, num jogo, por vezes, perigoso para ela. Mas vai ganhando  um tônus para lidar com as asperezas e os excessos todos da vida. Ainda antes de encontrar no instante seu Deus, ela tinha um passado e, nele, o Deus das escrituras lhe era caro, com seus tecidos mortos e entranhas fossilizadas. 

Mas soube aprender com tudo, e, com o tempo, muitas histórias foram recontadas. Já até compuseram seu mito pessoal. Histórias que viveram seu ciclo completo: primeiro, aceitas, depois, elaboradas, em seguida, integradas, e, por fim, transcendidas. Desenganada das fotografias, só se vê na feição do instante. Pensando que o próprio instante que não se pode captar seja ela mesma. 


Mariana Montenegro

dezembro de 2020