Como se chega ao fundo? Por mergulho ou por naufrágio?
Como, em geral, não se mergulha por livre e espontânea vontade, chega-se, mais comum, por naufrágio.
Assim que um olhar de farol viu, ao longe, uma embarcação se abater num agitado mar. Sendo sorvida nas ondulações e afundar. Para a capitã do barco cair no mais profundo e abissal oceano. Passando dos limites da enseada às remotas origens.
Lá se encontrou no ventre da baleia. Adentrou uma caverna submersa com memórias em hieróglifos ancestrais. Reconheceu (de sonhos) animais marinhos atlantes. Viu rebrilhar o sol interior do subterrâneo da terra.
Tudo isso decorreu num átimo. E adiante foi esgueirando-se a cavar. Bebeu da sabedoria dos guias de Gaia. Sentiu palpitar o coração do oceano em seu peito, tornado leve e largo.
Numa experiência brincante com uma pedrinha reluzente, passou a não mais se enunciar de lugar ou posição cerrada. De repente, podia estar em todos os lugares e assumir qualquer perspectiva.
Quando, por graça da ancestralidade marinha, tornou a emergir, era sem identidade de superfície. Ungida nas águas mais profundas desaguou renascida na altitude mesma do infinito.
Mariana Montenegro
dezembro de 2020




