terça-feira, 29 de setembro de 2020

Memórias da noite escura da alma

Ensimesmada em uma inquietação aérea,

Num estado alheio de sonolência,

Fito com o olhar volatilizado

Um inseto batendo na lâmpada.

Sinto o cheiro de madeira fumegante.

Vagueio desatinada a perguntar:

-Por onde andas, minha alma?


II

Perdida e ferida sentia todo o peso,

O cansaço, a dor da existência fadada.

Mergulhada em inconformidades,

Em um momento fraturado de crise aguda.

Com as vísceras da existência expostas,

Sofrendo de perplexidade me perguntava:

- O que me salvará do afogamento e me ensinará a navegar?


III

Na ausência de botes,

Vivia numa montanha-russa

Fazendo curvas demasiadamente acentuadas.

Afogava-me facilmente em mim mesma.

Sem fio de prumo,

Norte

Ou estrela-guia.


IV

Identificada com a vestimenta e sem contato com a própria pele

Encontrava-me sem saída nos trilhos do conhecido.

Enfrentei a noite escura da alma, catando os cacos dos dilaceramentos,

Nas divisas da desintegração humana.

Rompendo com o script fui mudando aos poucos meu próprio contorno.


V

Era noite de lua cheia.

As pupilas em chamas contemplavam os raios assombrados,

Nos cumes de uma emoção devastadora.

Vitimada por minha própria sensibilidade,

Com a alma ressequida,

Sorvi o breu

E o beco sem saída. 


VI

O orvalho encharca minha pele até o frio dos ossos.

De súbito, percebo-me em baixa, entristecida.

Quando tudo é tão somente memória-ranço,

Imperfeição do tempo. 


VII

 Já fui parede.

De tão dura e impenetrável

Luz não me permeava.

Procurei a porta,

Saí porosa. 


VIII

Não se comandam as forças dos ventos.

E como conspirar - respirar com o Sopro - não é lá muito normal,

Vive-se é muito à deriva, à mercê dos furacões.


IX

É um risco atravessar o rio.

Pode se perder o fôlego no meio do caminho.

Há ainda o risco de parar,

O risco de olhar para trás.

Mas, dos riscos, o maior, é não partir.

E aí sim, naufragar.


Mariana Montenegro

setembro/2020


 


Pensamentos da quarentena 2





I

Aprender

A ser melhor

Para o outro.

Desenvolver o caráter

Da alma

E sê-lo.


II

A vida tem uma cronologia.

Podemos contar histórias sucessivas.

Mas quando a gente entra no caminho,

O tempo deixa de ser linear,

Fica tudo simultâneo,

Circular.


III

Sou adepta da filosofia do bocó, que tem como axioma:

O conhecimento é complexo, mas o trato deve ser simples.

Como se diz: - Diante de um ser humano, ser apenas outro ser humano.

Até nossas ilusões precisam ser muito bem respeitadas,

Pois algumas sustentam um edifício inteiro.

Por isso, saber a hora de retirar o véu, com esmerado cuidado.


IV

O tempo é meu bem mais precioso.

Como o viverei a cada momento é uma incógnita.

Com que temperatura? Mais viva ou menos viva?

Escolho ouvir meu pulso cardíaco profundo.

Dedicar meu tempo aos afetos e ao conhecimento.

Naturalizar-me.

Com-templo o instante.


V

O que considero básico:

Peito leve feito pluma.

Eixo firme e flexível.

Hara.

Respiração.


VI

No deserto as mãos escrevem no vento e os passos são marcados na areia.

Calma e reflexão são atividades típicas do deserto.

Não-pensar e pensar com o hara também.

Lá é sabido que ninguém busca reconhecimento.

Vive-se apenas, com a humildade natural de um animal ou de uma planta.

Lá só há direção, estrela-guia e caminhante.

...No deserto é onde se encontram as fontes da vida...


VII

Que se preze e não se confunda:

A unidade é não-idêntica.


VIII

Existe a palavra útil, muito direta e estrita.

Comunica sem ruídos.

É palavra assentada,

Com raiz.

Mas tem também a palavra inutensílio, mais larga e profunda.

Aquela que adentra regiões abissais,

E nas alturas toca a matéria dos sonhos.

É a palavra soprada,

Alada. 


IX

Do verso paralelo à integração universal


Atravessando os fantasmas na noite escura da alma,

Em mundos paralelos, versos e fragmentos.

Em dogmas, catacreses e cisões.

Até a reviravolta heroica,

O novo nascimento,

O retorno.


O amor por tudo o que existe.

A alegria sem causa ou condição.

A dignidade na dor.

O verso e o uno

- O universo.

 Num abraço,

Num amálgama,

Reunida e compartilhada.


Ser mineral, vegetal, animal, homem, mulher e anjo.

Por montanhas, labirintos, rios e desertos.

Em muitos movimentos possíveis,

Um sem número de caminhos escarpados,

E todos levando à integração.


Mariana Montenegro

setembro/2020


sábado, 19 de setembro de 2020

O mal é amanhecer normal

 

Outono no Quebec/Canada

Seduz-me um perfume trazido pelo vento, que também carrega sementes que brotam nas floreiras. A rua me chega sem os barulhos do tráfego. Sou invadida pelo silêncio mágico da montanha. Os raios de sol acordam minhas células. Contemplo uma luminescência suave. Respiro profundamente. Percebo que cada dia é um dia a menos e há ameaças. 

Em 2020, o cerco da morte me lembra de que estar viva é uma dádiva. Agradeço e vivo – Carpe diem! - como se não houvesse amanhã! Nessa situação (e mesmo em outras), dia algum me é colorido de antemão. O estado interior pode mudar qualquer configuração natural. Das cores do céu até a direção dos ventos. Posso sufocar sozinha, e até facilmente me afogar.

Mas quando a pandemia chega e impõe a reclusão, forçosamente sou colocada diante do espelho e reflito sobre os rumos tomados até então. Freia a correria. Os automatismos são detidos. O foco se reajusta. E fica claro que o tempo é meu bem mais precioso. E que muitas horas são gastas com o que não importa de fato. Rejuvenescem as percepções.

Transvaloram-se os valores; a alegria simples, a presença no espaço, o discernimento entre o essencial e o supérfluo. Nesses dias que se seguem, de rotinas circunscritas, navego nas artes e nas ciências do espírito. Atravesso as tempestades circadianas e presencio um arco-íris no horizonte.  Sempre invertendo forças: transformando o vento forte que vem derrubar num empurrão para frente.

Encontro-me entre as árvores: o rizoma. Em conexão com tudo o que existe a minha volta; do micro-organismo do solo aos insetos. Nesse distanciamento existencial, o mal é a lonjura das nascentes que fluem pujantes ainda que pelos ermos. Fui ouvindo o chamado: - "Renova-te/Renasce em ti mesmo". Com olhar sensível, embevecido do novo dia, que tem o seu mal, no amanhecer normal. 

 Mariana Montenegro

agosto/2020

Alegria, alegria

 Para Fabiola C. Folly


Letícia dizia: - Não tenha culpa ou vergonha da Alegria. Ela me falava com um sorriso amável no rosto, mas também com a gravidade na voz de quem aprendeu nas sarjetas. Entre uma latitude e outra, um dia notou que a Alegria se situava num lugar bem longe da sua aldeia austral. Pois esta, professa, fazia Letícia se constranger de seu excesso de Alegria.

Segundo os espíritos tremelicantes, a vida é um inferno, ou quando menos, o purgatório. Sempre atento aos seus pecados de menina, o Deus a vigiava de algum lugar no invisível. Assistindo a tantas injustiças e violências reais, ela se convencia até o constrangimento, da sua loucura de Alegria. Quando sonhava um regalo, a pobrezinha, convencida com o rumor do coro, achava que não fazia por merecer.

Das sarjetas ao mundo, conheceu a diferença entre a Alegria e a felicidade. Esta, episódica,  é dependente das circunstâncias externas. Pendular com a tristeza. Já a Alegria que Letícia descobre é ação afirmativa, fé luzente, uma resposta ao embrutecimento, ao desânimo, à covardia. O melhor dos alimentos para a alma. 

Como se alegra, também se comove em alto grau. De um lado desata lágrimas doces e sorrisos largos, de outro desacata as crenças atávicas que alimentam o sofrimento humano. É alegre por nada. Ou será por tudo? No coração de Letícia a velha flor da esperança vive seu auge, e ela, intrepidamente alegre, assim, rejuvenesce. 

                                                                                                                        Mariana Montenegro

julho/2020