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| Outono. Quebec,Canadá/2012 |
Imagine uma visão de mundo estruturada na estética e não na moral. Era assim que considerava Heráclito, filósofo pré-socrático. Como se sabe, a moral é erigida sobre valores instituídos em contextos datados de grupos específicos. De tal forma que é limitada e anacrônica quando mantida igual através dos tempos. Se eu posso pensar livremente é graças à estética, não à moral.
Por isso,
considero a moral um tipo de estética antiquada que se cristalizou. Em algum
tempo foi uma resposta, uma forma nova, mas num tempo avançado não passou de repetição
e adequação. A moral é essa sistematização de valores rígidos que com o tempo,
naturalmente, caducam. Já a estética é o exercício de
olhar novamente, é prática de afeto e sensibilidade. Ela abre espaço para se conhecer.
Num misto de
prazer e surpresa, deparo-me com a beleza, objeto da estética. Foi mergulhada
numa sensação indizível que caminhei num jardim entre magnólias, ciclames e crisântemos. Em poucos segundos fui levada numa
aventura no azul do dia. A estética me leva desse modo, audaz, por arrebatamento. De repente
muda-se o olhar e este colore a paisagem. Beleza é transparência d’alma. Como
diz o escritor Peter Handke, a beleza que não se abre, que não se dá, não é
beleza.
No entanto, há
que se atentar aqui às matizes de beleza que aludem explicitamente a uma estética
pungida de elegância e graça. Não é qualquer nota. Não é simples maquiagem e
truques. A estética é apreendida por múltiplas vias, além da arte, pela ciência, a filosofia e o sagrado. Revela-se à superfície como circula nas alturas abismais e na profundidade oceânica psíquica.
A estética como
filosofia da arte debruça-se sobre a ciência do belo e suas acepções. Não é
mera superficialidade. Estética também se relaciona à ética, pelo caráter volitivo
e conformador individual intransferível. Liga-se ao conhecimento e ao
aperfeiçoamento das próprias formas humanas. A estética é enunciação do
maravilhamento e da impermanência concomitantes da existência.
Como sugeriu o filósofo de Éfeso, o mundo pode
muito bem ser assim estruturado com o olhar estético. De tal modo que promova a
invenção e abra espaço a uma torrente vigorosa de vida. Nessa evocação só
acredito nos deuses e nos gênios que saibam dançar. Somente me inclino à estética
que saúda, com riso ou comoção, num caudaloso vórtice de sensações, a própria
vida que forma e transforma.
Mariana Montenegro
maio/2020

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