quinta-feira, 28 de maio de 2020

O quanto eu integro de mundo? Eis a questão


 Desce a noite murmurando: reduzir ou expandir? Sinto o perfume no vento, o orvalho a me encharcar a pele. Sou assim acordada nos meus sentidos. Percebo-me de súbito em baixa, entristecida, quando tudo não passa de memória ranço. Momento em que pergunto: - Para onde foi a vida? Procuro por ela, rumino um pouco. Lembro-me da notória redução da vida à falta, com a alegação de que da falta decorreria todo o sofrimento, e que a vida humana se caracterizaria então por um mal estar sem solução. 

De forma diversa, na língua japonesa, a ideia de falta é entendida como um espaço para uma entrada. O significado de 'vazio' vem da formação dos símbolos “portão/portal” e “Sol”. Isto observado para corroborar com uma outra ideia que diz, contrariamente, que não há falta. Ela só pode surgir de uma comparação, de uma referência que desconsidera a singularidade. Existe uma falsa impressão de falta. Notando bem vê-se que há algo nesse lugar da “falta”, nem que seja um sofrimento, que não sinaliza para a falta de alguma coisa, pois já é algo em si. Seja uma dor real, uma situação em trânsito, uma emoção que represou, uma idealização qualquer. Aí mesmo há vida, não há falta. O que há é excesso.

Vida, quando reduzida, pode ser represada e contida. Assim tenderá ao rompimento e ao estouro. Fazendo diferente, valorizando a vida em seu excesso, temos expansões, transbordamentos e desdobramentos infinitos. Temos vida em quantidade. E dessa forma, como lidar? Imediatamente penso na paz. O quanto a valorizo. Não a quero perder para os excessos. Mas há paz sem o trabalho com os excessos? Paz é estagnação? Não. Como disse Virginia Woolf: "Não se encontra a paz evitando a vida". Reduzir é baía sossegada, expandir é um rio em chispa. 

Canalizar seria a melhor palavra aqui. Expressar. Encontrar canais, canaletas e direções. Lembro-me de uma aula de teatro em que o professor elogiava os excessos do ator em cena, pois teria o que lapidar. O problema seria uma aula de improvisação sem excessos. Não haveria o que se fazer. Nenhum personagem seria construído. É o centro interno integrador que dá forma a diferentes aspectos, que direciona as forças e organiza a multiplicidade.

Quanto mas canalizo, mais crio. Quanto mais canalizo, mais arte na vida e mais vida. A matéria bruta é essencial. O caos é inicial. O excesso é produtivo. Por isso, toda a tônica é integrar. Integrar, integrar e integrar. E a questão que se coloca é: o quanto de mundo sou capaz de abarcar? Quantas camadas suporto considerar? Estou aberta ao entre? O quanto eu integro de mundo? Eis a questão. Que posta num gesto de tecitura de linhas, de criação de continuidades, tensiona caudalosamente provocando alargamentos e dilatamentos. 

Mariana Montenegro
maio/2020



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