Desce a noite murmurando: reduzir ou expandir? Sinto o perfume no vento, o orvalho a me encharcar a pele. Sou assim acordada nos meus sentidos. Percebo-me de súbito em baixa, entristecida, quando tudo não passa de memória ranço. Momento
em que pergunto: - Para onde foi a vida? Procuro por ela, rumino um pouco. Lembro-me da notória redução da vida à falta, com a alegação de que da falta decorreria todo o sofrimento, e que a vida humana se caracterizaria então por um mal estar sem solução.
De forma diversa, na língua
japonesa, a ideia de falta é entendida como um espaço para uma
entrada. O significado de 'vazio' vem da formação dos símbolos “portão/portal” e “Sol”. Isto observado
para corroborar com uma outra ideia que diz, contrariamente, que não há falta. Ela só pode surgir de uma comparação, de uma referência que desconsidera a singularidade. Existe uma falsa impressão de falta. Notando bem vê-se que há algo nesse
lugar da “falta”, nem que seja um sofrimento, que não sinaliza para a falta de alguma coisa, pois já é algo
em si. Seja uma dor real, uma situação em trânsito, uma emoção que represou, uma idealização qualquer. Aí mesmo há vida, não há
falta. O que há é excesso.
Vida, quando reduzida, pode ser
represada e contida. Assim tenderá ao rompimento e ao estouro. Fazendo
diferente, valorizando a vida em seu excesso, temos expansões, transbordamentos
e desdobramentos infinitos. Temos vida em quantidade. E dessa forma, como lidar? Imediatamente penso na paz. O quanto a valorizo. Não a quero perder para os excessos. Mas há paz sem o trabalho com os excessos? Paz é
estagnação? Não. Como disse Virginia Woolf: "Não se encontra a paz evitando a vida". Reduzir é baía sossegada, expandir é um rio em chispa.
Canalizar
seria a melhor palavra aqui. Expressar. Encontrar canais, canaletas e direções.
Lembro-me de uma aula de teatro em que o professor elogiava os excessos do
ator em cena, pois teria o que lapidar. O problema seria uma aula de
improvisação sem excessos. Não haveria o que se fazer. Nenhum personagem seria
construído. É o centro interno integrador que dá forma a diferentes aspectos,
que direciona as forças e organiza a multiplicidade.
Quanto mas canalizo, mais crio. Quanto mais canalizo, mais arte na vida e mais vida. A matéria
bruta é essencial. O caos é inicial. O excesso é produtivo. Por isso, toda a
tônica é integrar. Integrar, integrar e integrar. E a questão que se coloca é: o
quanto de mundo sou capaz de abarcar? Quantas camadas suporto considerar? Estou aberta ao
entre? O quanto eu integro de mundo? Eis a questão. Que posta num gesto de tecitura de linhas, de criação de continuidades, tensiona caudalosamente provocando alargamentos e dilatamentos.
Mariana Montenegro
maio/2020

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