quinta-feira, 4 de junho de 2020

O sagrado na alma poética



Cecilia Meireles

“A perfeição inteira está em toda parte”
RabindranathTagore

A alma poética extrai o sumo sagrado da vida. Sua arte é insight, gestalt, epifania. Ela foge de atravessadores, passa longe dos mediadores do sagrado. Quer atravessar sem muleta ou corrimão, enlaçando a paisagem, espreitando o íntimo da vida. Sabe fazer milagres; salva afogados, devolve o sabor ao saber. Quando o assunto é o absoluto das coisas do céu, a alma poética no sobrado silencia. 

Ela as conhece por desconhecimento. Quando não silencia, canta. Decerto que a alegria para ela é o que mais se aproxima do sagrado do céu. Mas nem assim a existência rasteira lhe é estranha. Sua sensibilidade e horizontalidade dão-lhe compreensão empática. Ela dignifica o reles. Seu olhar torna vultosas as coisas mais desapreciadas.

Antena da Raça vive inventando, e fala do sagrado, florescendo. Assemelha-se ao jardineiro no seu ofício. Como na Metafísica das Rosas, de Machado de Assis: “No princípio era o jardineiro. E o jardineiro criou as Rosas. E tendo criado a chácara e o jardim, com todas as coisas que nele vivem para a glória e contemplação das Rosas”. 

Tem uma capacidade excepcional: consegue enxergar uma vasta área cinzenta no lusco-fusco. Diletante na experiência vertiginosa sem lastro ou sem farol. Já a vi, inclusive, na espuma das ondas tomando caixote, perdendo o fôlego vital. Mas das espumas ela nasce trazendo um novo alento. Sua quintessência é evocada nos “Cânticos” de Cecília Meireles, numa ressonância do sagrado:

“Não busques para lá/ O que é, és tu/ Em tudo/ A gota esteve na nuvem/ Na seiva/ No sangue/ Na terra/ E no rio que se abriu no mar/ E no mar que se coalhou em mundo/ Tu tiveste um destino assim/ Faze-te à imagem do mar/ Dá-te à sede das praias/ Dá-te à boca azul do céu/ Mas foge de novo à terra/ Mas não toques nas estrelas/ Volve de novo a ti/ Retoma-te.”

Mariana Montenegro
junho/2020

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