![]() |
| Cecilia Meireles |
“A perfeição inteira está em toda parte”
RabindranathTagore
A alma poética extrai o sumo sagrado da vida. Sua arte é insight, gestalt, epifania. Ela foge de atravessadores, passa longe dos mediadores do sagrado. Quer atravessar sem muleta ou corrimão, enlaçando a paisagem, espreitando o íntimo da
vida. Sabe fazer milagres; salva afogados, devolve o sabor ao
saber. Quando o
assunto é o absoluto das coisas do céu, a alma poética no sobrado silencia.
Ela
as conhece por desconhecimento. Quando não silencia, canta. Decerto que a alegria
para ela é o que mais se aproxima do sagrado do céu. Mas nem assim a existência
rasteira lhe é estranha. Sua sensibilidade e horizontalidade dão-lhe compreensão
empática. Ela dignifica o reles. Seu olhar torna vultosas as coisas mais desapreciadas.
Antena da Raça vive inventando, e fala do sagrado, florescendo.
Assemelha-se ao jardineiro no seu ofício. Como na Metafísica das Rosas, de Machado de Assis:
“No princípio era o jardineiro. E o jardineiro criou as Rosas. E tendo criado a
chácara e o jardim, com todas as coisas que nele vivem para a glória e
contemplação das Rosas”.
Tem uma capacidade
excepcional: consegue enxergar uma vasta área cinzenta no lusco-fusco. Diletante na experiência vertiginosa sem lastro ou sem farol. Já a vi,
inclusive, na espuma das ondas tomando caixote, perdendo o fôlego vital. Mas das espumas ela nasce trazendo um novo alento. Sua quintessência é evocada nos “Cânticos” de Cecília Meireles, numa ressonância do sagrado:
“Não busques
para lá/ O que é, és tu/ Em tudo/ A gota esteve na nuvem/ Na seiva/ No sangue/ Na terra/ E no rio que se abriu no mar/ E no mar que se coalhou em mundo/ Tu
tiveste um destino assim/ Faze-te à imagem do mar/ Dá-te à sede das praias/ Dá-te à boca azul do céu/ Mas foge de novo à terra/ Mas não toques nas
estrelas/ Volve de novo a ti/ Retoma-te.”
Mariana Montenegro
junho/2020

Nenhum comentário:
Postar um comentário