segunda-feira, 25 de maio de 2020

A exaustão da virtualidade

       
Inverno. Canadá. janeiro/2016


"O homem é um rio turvo, 
é preciso ser um mar para, 
sem se toldar, 
receber um rio turvo".  
Nietzsche

      Quando cheguei ao Canadá meu objetivo era me despir de tudo o que sabia, do que eu achava que sabia, e de todas as minhas memórias. Sentia-me exausta, carregada, sem espaço para o novo. Sentia a emergência de uma transformação, que só poderia vir com um esvaziamento. Para isso, voltei ao corpo, ao agora, à natureza. Liberei-me de toda ideia de eu, da hipertrofiada virtualidade, de tantos conteúdos acumulados que se cronificaram visivelmente no meu corpo.  

     No conto "Verdadeiro Semblante" narro essa vivência: "Precisava de uma boa morte, de uma real transformação. Ela precisaria começar do zero. Voltar à terra. Aos ciclos naturais. Ao corpo. Reconciliar-se com os mistérios. Entender que tudo o que ela aprendeu até então foram mentiras convencionadas. Aceitar de volta a sua inocência e a sua simplicidade. Perder a coerência, mas reencontrar a congruência. Sentir novamente a terra sob seus pés, os fluidos vitais, o alimento que dá saúde ao corpo, o pensamento que dá saúde à mente, reaprender a viver". 

     Passando por essa metanoia, quando o sol tornou a nascer, recebi-o com um sorriso, os poros dilatados, redescobrindo um matiz de suave intenso calor. Ao contemplar, eu saía de mim e olhava sem mim - tão sublime libertação e união com tudo! Pois quando imersa em mim, mal consigo ver, mas se me distancio assim, consigo ver com clareza. Era com a consciência no corpo e no instante que pudera perscrutar os contornos mais desejados.

     Como o peixe está no mar, estou num campo de virtualidade; de memória, moral, valores, ideias, formas. Minha tarefa humana é criar novos contornos, a partir de tudo o que concateno e dos atravessamentos. Formando meu próprio repertório de pensamento-chão e ideias-força. Partindo do princípio que não tem uma verdade ou um futuro como mediadores do agora, pois viver não é preciso de precisão, mas de fluxo e atenção. 

    O modelo de pensamento Ocidental baseado na moral e na verdade, de sentido definidor e excludente, não dá conta da realidade nem do vir a ser. Porque viver exige a lida com situações inéditas, que demandam abertura e esforço para conseguir oferecer novas respostas. É o corpo-presente em ato de concatenar as ideias-valores circulantes na virtualidade-memória. Modus operandi da criação de formas que se dá na simultaneidade, quiçá na harmonia, no tocar simultâneo de diferentes notas.  

     Sou devir (ser em mudança, superação de si) quando a virtualidade-memória é usada em função do corpo-presença. A consciência é a capacidade de desdobramento, de reflexão que cria os novos contornos. As  formas caducas impressas na racionalidade não dão mais conta do mundo, da realidade, do que é um homem, do que é uma mulher. Por isso, eu não confio num pensador que não saiba não-pensar. Sem esse esvaziamento não há possibilidade de atualização. Ser é nascer de novo a cada novo dia, fazendo circular a vida que nos atravessa.  

      O esvaziamento das virtualidades na experiência do Canadá curou minhas memórias e angústias. Sem passado ou futuro, sem verdades ou autoridades para me agarrar, passei a enfrentar minhas próprias contradições e o jogo de forças em mim. Sem sufocar as intensidades nem desterrar os limites, as margens do rio. Assim correndo as águas, desvestindo-se as camadas. Assim como crio uma nova linguagem, renomeio o mundo, pequeno mundo. 

Mariana Montenegro
maio/2020

3 comentários:

  1. Mariana, vc é um ser surpreendente, maravilhoso! Uma capacidade de colocar em palavras pensamentos , conceitos difíceis de ser expressos , a não ser por alguém que tenha vivenciado profundamente essas transformações. Esvaziar-se é uma tarefa hercúlea, e é necessário muita coragem para fazer essa travessia. Amo o que vc escreve por saber que é absolutamente verdadeiro e que vem de um coração puro. Que pode encarar as contradições e sair fortalecida desses encontros/desencontros. Um menor e carinhoso beijo.

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  2. Mariana'! Quee texto todo você!
    Admiro essa voragem de se ver por inteiro e me encanta te ver também desfrutando, cada vez mais dessa colheita em si mesma. Um abraço carinhoso com minha admiração..

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  3. Olá Mariana! Seu texto é um Convite à REFLEXÃO e, entre tantos pontos a comentar, destaco dois deles:1°ponto, o" Viver não é preciso..." me fez lembrar Fernando Pessoa " Navegar é preciso, Viver não é preciso".Realmente, não há precisão no viver até pq o fluxo da VIDA é marcado pelo imprevisto, a única previsão q há na vida.E isso já remete pata o 2° ponto: Pensamento Ocidental Cartesiano, baseado na razão, reducionista e excludente q, realmente, não dá conta do viver/ vir a ser. O"Penso,logo existo" de Descartes sempre me traz à mente o " Sou onde não penso" de Lacan. PARABÉNS pelo Texto!😘

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