sexta-feira, 30 de abril de 2021
terça-feira, 20 de abril de 2021
Encontro com a verdade
Um dia, há
muito tempo atrás, uma amiga me convidou para a palestra de um iluminado. Sem o
conhecer, mas interessada, aceitei o convite. Chegando ao lugar do encontro, sentamos formando um semi-círculo em torno dele que, tão logo se apresentou, abriu
às perguntas.
Quando alguém compartilhou: “Eu sinto muita raiva, muita raiva, não sei como superar isso”. E ele logo respondeu: “Tudo bem de você sentir raiva. Sinta". E deu-se ali uma respiração profunda com uma longa expiração. Em seguida, senti um forte estremecimento, que me forçou a partilhar:
- Eu busco desenvolver minha espiritualidade. Eu luto contra os meus defeitos... mas é difícil. Então ouvi:“Pare de lutar. Não tem que lutar”. E olhando dentro dos meus olhos perguntou: “Você vê?". Sua luz era tão forte que iluminou tudo em mim. A luta interna que eu travava cessou. Eu chorei.
Enquanto isso ele mantinha um sorriso amável no rosto. Esse foi meu primeiro satsang (do sânscrito) - “encontro com a verdade”. O primeiro contato na vida com a ideia da aceitação; que é o princípio de tudo, o início da cura. E ele então, resumindo toda a sua mensagem, revelou:
“PARA ME ILUMINAR TIVE QUE ABRAÇAR TUDO O QUE
NEGUEI”.
E assim é.
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p.s. Hoje considero que este termo "iluminado" (como uma distinção) caiu em desuso, pois perdeu a sua mística (seu mistério) e tornou-se algo bastante comum.
Mariana Montenegro
abril de 2021
domingo, 18 de abril de 2021
Vestais XXI
No Templo Circular 6 sacerdotisas velam o Fogo Perpétuo, sob um manto e um véu, aos olhos das profundezas. A esta altura, do crepúsculo sem estrelas, sem o olhar para fora da caverna, resta o fogo que qualquer natureza consome.
Mas há quem vindo de longe pergunte à boca pequena do templo (o oráculo): - O que exatamente as sacerdotisas transmutam em seus ritos secretos?
- Tudo é notório dado o desenlace dos tempos. Estamos cá a sustentar o céu. A alimentar os atributos que o momento pede. Dos tempos que virão que já aí estão.
Sem ocultar, as sacerdotisas de Vesta ressoam em coro também os atributos que urgem do fogo:- Confiança! Misericórdia! Confiança! Misericórdia!
E conclamam para haja o que houver remanescente, no que ainda sobejar vicejante, mantê-los vivos com a chama interior.
Mariana Montenegro
abril de 2021
segunda-feira, 12 de abril de 2021
?
Teve uma
médica que me ajudou a viver a morte da minha mãe.
Ela é bastante
conhecida na área de cuidados paliativos. Aqueles dedicados aos doentes graves
ou incuráveis. Assisti a seus vídeos a procura de ajuda para atravessar o
sofrimento, e de compreensão a respeito do processo da morte.
Recentemente ela
compartilhou algo que achei curioso: disse que, ao contrário do que se pensa
normalmente, não é a primeira impressão a que fica, mas a última. Segundo ela,
é no final da vida que as pessoas expressam a essência do ser humano. Dizendo
mais:
“A
generosidade com que essas pessoas distribuem sabedoria, conhecimento e
gratidão para quem trabalha com Cuidados Paliativos com dedicação é algo que
não dá para descrever”.
E me pergunto:
Por que deixamos para o fim da vida para distribuir o que temos de melhor? Que
diabos de aparências são essas tão importantes que nos impedem?
Mariana Montenegro
abril de 2021
domingo, 11 de abril de 2021
Como humanos se tornam anjos
“(...) mais importante do que nascer é ressuscitar”. (Lygia Fagundes
Teles)
Eu não ligava
para o fato de estar fazendo Primeira Comunhão. Tinha 12 anos de idade. As aulas
de catecismo eram sempre uma grande zoeira. Até o dia da cerimônia, que
aconteceu na igreja de vidro da Lagoa, apelidada de aquário.
Era final do
século XX, as religiões já mais para tumba do espírito, do que lugar de vida e
comunhão. No entanto, havia uma mulher, a diretora da escola – a tia Darly, que
conduziu a cerimônia. E que com uma atitude estranha chamou minha atenção.
Havia um brilho em seus olhos lacrimosos. Ela cantava com um sentimento profundo. Totalmente entregue diante de nós, desfrutando de um amor, de um prazer, de uma alegria, que só ela entendia do que se tratava. Como se tivesse bebido de um néctar exótico.
E ela cantava, e as crianças riam, e ela cantava, e as crianças riam. Mas ela era uma chama viva que não se apagava. E o que cantou ali passou a fazer parte do meu repertório até hoje. Canto para os meus guias e eles cantam para mim.
Hoje sua imagem me aparece viva. Mais viva do que naquele tempo. Como se eu pudesse sentir. Beber do mesmo néctar. Compreendendo que uma comunhão com algo maior se celebrava naquele coração puro. Que fez semear. E se irradiou do tempo para a eternidade.
Mariana Montenegro
abril de 2021




