sábado, 21 de novembro de 2020

Confissão alienígena

 


Estava um homem que meu pai se orgulharia. Rico, incensado, temido. Só que mais ambicioso. A mim não bastava ser um simples senhor de um pedaço de terra. Tornei-me dono de jazidas subterrâneas, esgotei consecutivas minas com a atividade extrativista da mais rentável. Só que nem sempre foi assim. Já tive a voz de vogal doçura dos poetas. Criança, tinham-me por “bom garoto”.

Diziam que meus olhos eram de pássaro e eu estava sempre a brincar entre as margaridinhas. O que causava preocupação em meus pais. A ausência de traço de bruteza era como um desalinho de conduta. – “Além do que, como vai viver?” Rumorejavam ressabiados. Quando brincava com as outras crianças, não tentava me sobressair, queria apenas me integrar. Muito ostentava de sorrir.

- “Precisa virar homem”, diziam. E assim foi. Virei homem. Comecei negociando meu coro, e depois, já empresário, o coro dos demais. Consideravam-me um sujeito de visão. Sentia-me generoso para com os meus, e grande produtor para o mundo. Mas sofria do peito angustiado, da mente enevoada. Tomando remédio pra dormir, remédio pra acordar...

Nos domínios do demasiado, sentia-me o próprio arquiteto das ruínas. Nessas horas, pensava em largar esse trabalho, parar imediatamente a extração, deixando de fazer crescer o mundo das ruínas. Mas muitos me achariam um louco. Ou idiota. Tinha medo do que iriam pensar. Medo de perder tudo. Medo de ficar sozinho. Assim era por medo guiado. Porque no fundo da minha consciência, sem que ninguém o soubesse, eu me consumia.  

Mas acontece é que eu não posso ser bom. Admitir o quanto me compadeço da dor desta terra e de seus povos seria motivo de zombaria. Não seria nem mais reconhecido. De insigne à insignificante. Viraria outro. Quando tomado por essa força moral, sinto-me profundamente envergonhado, um verme. Essa força se move com a compaixão dentro de mim. Mas isso acontece na antecâmara, em segredo.

Tornando-me outro viveria a graça inestimável de ser nada. Como aquelas pedras preciosas que apenas deixam a luz passar. Sempre sonho com uma mulher e um xamã, no interior de uma câmara. Eles celebrando algo, e eu, do lado de fora. Quando acordo, imagino um ser humano melhor; que eu poderia ser melhor. Ser parte também da terra. Confesso: é o tormento da minha consciência que escapa à falsificação. ME REVELA.  

Mariana Montenegro

outubro de 2020

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

Auto-crítica geracional

No mesmo mundo de Dostoievski, um antípoda tergiversa entre idiotas engazopados e niilistas. De face rubra e expressão sorumbática, pensa nestes últimos nobilíssimos, que reduziram tudo a tão nada e qualquer coisa. Do fel das obras niilistas, por uma réstia de luz, o antípoda persiste dizendo que tudo serve à alma disposta a aprender. Seja com o subsolo de Fiódor ou das janelas de 2020. 

Para este antípoda secular, aprender é criar formas. Numa dinâmica que se atualiza perenemente. No entanto, sem reproduzir a fórmula niilista de dissolver as formas estruturantes e lapidares. Mas, ao contrário, sempre as rejuvenescendo. Tal é sua própria maneira de viver a paisagem na falta da beleza.

Mas o assunto em questão que vem falar é a certeza. Súbito o antípoda mira a certeza como posta sobre as águas. Ei-la feita a imagem de uma tábua de salvação. Tendo ainda a visão clara, apesar do caos trevoso dos tempos, põe-se a questão: - O que é a vida? E levantando-se num salto dirá: - É torrente! É fluxo! Não é certeza! 

Mas diga-se: é certeza logo que se agarra a algo, porque sem esperança no fluxo. Ao inverso do viver impreciso, feito ato criativo. Como quem sabe que não pode repisar ou entrar duas vezes no mesmo rio. Como alguém outro, o idiota atualizado, pós-niilista, a fazer seu paraquedas colorido, sonhando ainda voar com alguma graça.  


Mariana Montenegro

novembro de 2020




domingo, 1 de novembro de 2020

Política ao alcance das mãos

 


Conheci uma mulher que se apaixonou por um político à imagem grosseira de suas fantasias infantis, de seus sintomas pessoais, por efeito de transferência. Logo se via. A mulher recrudescida a qualquer contrariedade de juízo. Enunciava, sem decoro ou pudor, discursos de autoridade. Enquanto assistia, pensava se ela, para além dos ímpetos espasmódicos, já teria largueado sua verdadeira luta. 

É certo que vivia a praguejar o mundo, mas não sabia realmente se ela já teria descoberto seu próprio campo de batalha na vida. Notei que achava que suas atitudes eram realmente suas, totalmente conscientes, e diziam respeito a ela. No entanto, olhando mais detidamente, vi que havia nela uma sombra de dúvida, quando então tive alguma esperança. Segredou se sentir desnorteadamente marionete dos algoritmos. 

Sua bolha, bastante hermética, ruminava sempre as mesmas narrativas, e sempre expressando a mesma devoção por uns e danação por outros. Sem matizes, só fazendo reforço. Não trazendo nada de novo. E ela foi aos poucos se cansando. O que iria fazer? Reincidir eternamente nas mesmas manias e obsessões? Decidiu por não quando percebeu algo importante: sua ocupação de torcedora política tirava-lhe tempo precioso.

Viu o jardim de sua aldeia abandonado, e pensou que ali poderia fazer algo de bom. As plantas estavam murchas carentes do seu olhar. Viu um mutirão de formigas, e lembrou que, para os aborígenes, as formigas sonham. Começou a limpar a terra e a podar as plantas. Ouviu o cantar dos pássaros e o latir dos cachorros da rua. Ficando enriquecida das coisas comezinhas da realidade experimental. 

E teve com ela a ideia de elaborar melhor suas estratégias. Pensando numa luta ao alcance de suas mãos, de sua vizinhança, de suas bases. Confesso que fiquei bastante surpreendida com suas novas percepções. Ali mesmo, no jardim. Sonhando com as formigas. Portentosa desperta do turvamento. Percebendo que, entre o fanatismo - o sim absoluto, e o niilismo - o não absoluto, há outra via.

Não deixou de se sentir um animal-político, pois mulher sabe bem que direito algum caiu do céu azul. Pensa fortalecer suas bases, organizada com sua comunidade, para formar uma massa crítica capaz de contagiar o mundo até o topo da pirâmide. Sabendo minha heroína dos tempos distópicos em que vive. Do reinado da ignorância e da desavença. Ainda assim, e à guisa de não perder a viagem, pleiteia no vento uma nova-velha utopia - das bases. 

 Mariana Montenegro

outubro de 2020