sexta-feira, 29 de maio de 2020

Sobre estética e beleza


Outono. Quebec,Canadá/2012


          Imagine uma visão de mundo estruturada na estética e não na moral. Era assim que considerava Heráclito, filósofo pré-socrático. Como se sabe, a moral é erigida sobre valores instituídos em contextos datados de grupos específicos. De tal forma que é limitada e anacrônica quando mantida igual através dos tempos. Se eu posso pensar livremente é graças à estética, não à moral.

Por isso, considero a moral um tipo de estética antiquada que se cristalizou. Em algum tempo foi uma resposta, uma forma nova, mas num tempo avançado não passou de repetição e adequação. A moral é essa sistematização de valores rígidos que com o tempo, naturalmente, caducam. Já a estética é o exercício de olhar novamente, é prática de afeto e sensibilidade. Ela abre espaço para se conhecer.
 
Num misto de prazer e surpresa, deparo-me com a beleza, objeto da estética. Foi mergulhada numa sensação indizível que caminhei num jardim entre magnólias, ciclames e crisântemos. Em poucos segundos fui levada numa aventura no azul do dia. A estética me leva desse modo, audaz, por arrebatamento. De repente muda-se o olhar e este colore a paisagem. Beleza é transparência d’alma. Como diz o escritor Peter Handke, a beleza que não se abre, que não se dá, não é beleza.

No entanto, há que se atentar aqui às matizes de beleza que aludem explicitamente a uma estética pungida de elegância e graça. Não é qualquer nota. Não é simples maquiagem e truques. A estética é apreendida por múltiplas vias, além da arte, pela ciência, a filosofia e o sagrado. Revela-se à superfície como circula nas alturas abismais e na profundidade oceânica psíquica.

A estética como filosofia da arte debruça-se sobre a ciência do belo e suas acepções. Não é mera superficialidade. Estética também se relaciona à ética, pelo caráter volitivo e conformador individual intransferível. Liga-se ao conhecimento e ao aperfeiçoamento das próprias formas humanas. A estética é enunciação do maravilhamento e da impermanência concomitantes da existência.

 Como sugeriu o filósofo de Éfeso, o mundo pode muito bem ser assim estruturado com o olhar estético. De tal modo que promova a invenção e abra espaço a uma torrente vigorosa de vida. Nessa evocação só acredito nos deuses e nos gênios que saibam dançar. Somente me inclino à estética que saúda, com riso ou comoção, num caudaloso vórtice de sensações, a própria vida que forma e transforma.

Mariana Montenegro
maio/2020

quinta-feira, 28 de maio de 2020

O quanto eu integro de mundo? Eis a questão


 Desce a noite murmurando: reduzir ou expandir? Sinto o perfume no vento, o orvalho a me encharcar a pele. Sou assim acordada nos meus sentidos. Percebo-me de súbito em baixa, entristecida, quando tudo não passa de memória ranço. Momento em que pergunto: - Para onde foi a vida? Procuro por ela, rumino um pouco. Lembro-me da notória redução da vida à falta, com a alegação de que da falta decorreria todo o sofrimento, e que a vida humana se caracterizaria então por um mal estar sem solução. 

De forma diversa, na língua japonesa, a ideia de falta é entendida como um espaço para uma entrada. O significado de 'vazio' vem da formação dos símbolos “portão/portal” e “Sol”. Isto observado para corroborar com uma outra ideia que diz, contrariamente, que não há falta. Ela só pode surgir de uma comparação, de uma referência que desconsidera a singularidade. Existe uma falsa impressão de falta. Notando bem vê-se que há algo nesse lugar da “falta”, nem que seja um sofrimento, que não sinaliza para a falta de alguma coisa, pois já é algo em si. Seja uma dor real, uma situação em trânsito, uma emoção que represou, uma idealização qualquer. Aí mesmo há vida, não há falta. O que há é excesso.

Vida, quando reduzida, pode ser represada e contida. Assim tenderá ao rompimento e ao estouro. Fazendo diferente, valorizando a vida em seu excesso, temos expansões, transbordamentos e desdobramentos infinitos. Temos vida em quantidade. E dessa forma, como lidar? Imediatamente penso na paz. O quanto a valorizo. Não a quero perder para os excessos. Mas há paz sem o trabalho com os excessos? Paz é estagnação? Não. Como disse Virginia Woolf: "Não se encontra a paz evitando a vida". Reduzir é baía sossegada, expandir é um rio em chispa. 

Canalizar seria a melhor palavra aqui. Expressar. Encontrar canais, canaletas e direções. Lembro-me de uma aula de teatro em que o professor elogiava os excessos do ator em cena, pois teria o que lapidar. O problema seria uma aula de improvisação sem excessos. Não haveria o que se fazer. Nenhum personagem seria construído. É o centro interno integrador que dá forma a diferentes aspectos, que direciona as forças e organiza a multiplicidade.

Quanto mas canalizo, mais crio. Quanto mais canalizo, mais arte na vida e mais vida. A matéria bruta é essencial. O caos é inicial. O excesso é produtivo. Por isso, toda a tônica é integrar. Integrar, integrar e integrar. E a questão que se coloca é: o quanto de mundo sou capaz de abarcar? Quantas camadas suporto considerar? Estou aberta ao entre? O quanto eu integro de mundo? Eis a questão. Que posta num gesto de tecitura de linhas, de criação de continuidades, tensiona caudalosamente provocando alargamentos e dilatamentos. 

Mariana Montenegro
maio/2020



segunda-feira, 25 de maio de 2020

A exaustão da virtualidade

       
Inverno. Canadá. janeiro/2016


"O homem é um rio turvo, 
é preciso ser um mar para, 
sem se toldar, 
receber um rio turvo".  
Nietzsche

      Quando cheguei ao Canadá meu objetivo era me despir de tudo o que sabia, do que eu achava que sabia, e de todas as minhas memórias. Sentia-me exausta, carregada, sem espaço para o novo. Sentia a emergência de uma transformação, que só poderia vir com um esvaziamento. Para isso, voltei ao corpo, ao agora, à natureza. Liberei-me de toda ideia de eu, da hipertrofiada virtualidade, de tantos conteúdos acumulados que se cronificaram visivelmente no meu corpo.  

     No conto "Verdadeiro Semblante" narro essa vivência: "Precisava de uma boa morte, de uma real transformação. Ela precisaria começar do zero. Voltar à terra. Aos ciclos naturais. Ao corpo. Reconciliar-se com os mistérios. Entender que tudo o que ela aprendeu até então foram mentiras convencionadas. Aceitar de volta a sua inocência e a sua simplicidade. Perder a coerência, mas reencontrar a congruência. Sentir novamente a terra sob seus pés, os fluidos vitais, o alimento que dá saúde ao corpo, o pensamento que dá saúde à mente, reaprender a viver". 

     Passando por essa metanoia, quando o sol tornou a nascer, recebi-o com um sorriso, os poros dilatados, redescobrindo um matiz de suave intenso calor. Ao contemplar, eu saía de mim e olhava sem mim - tão sublime libertação e união com tudo! Pois quando imersa em mim, mal consigo ver, mas se me distancio assim, consigo ver com clareza. Era com a consciência no corpo e no instante que pudera perscrutar os contornos mais desejados.

     Como o peixe está no mar, estou num campo de virtualidade; de memória, moral, valores, ideias, formas. Minha tarefa humana é criar novos contornos, a partir de tudo o que concateno e dos atravessamentos. Formando meu próprio repertório de pensamento-chão e ideias-força. Partindo do princípio que não tem uma verdade ou um futuro como mediadores do agora, pois viver não é preciso de precisão, mas de fluxo e atenção. 

    O modelo de pensamento Ocidental baseado na moral e na verdade, de sentido definidor e excludente, não dá conta da realidade nem do vir a ser. Porque viver exige a lida com situações inéditas, que demandam abertura e esforço para conseguir oferecer novas respostas. É o corpo-presente em ato de concatenar as ideias-valores circulantes na virtualidade-memória. Modus operandi da criação de formas que se dá na simultaneidade, quiçá na harmonia, no tocar simultâneo de diferentes notas.  

     Sou devir (ser em mudança, superação de si) quando a virtualidade-memória é usada em função do corpo-presença. A consciência é a capacidade de desdobramento, de reflexão que cria os novos contornos. As  formas caducas impressas na racionalidade não dão mais conta do mundo, da realidade, do que é um homem, do que é uma mulher. Por isso, eu não confio num pensador que não saiba não-pensar. Sem esse esvaziamento não há possibilidade de atualização. Ser é nascer de novo a cada novo dia, fazendo circular a vida que nos atravessa.  

      O esvaziamento das virtualidades na experiência do Canadá curou minhas memórias e angústias. Sem passado ou futuro, sem verdades ou autoridades para me agarrar, passei a enfrentar minhas próprias contradições e o jogo de forças em mim. Sem sufocar as intensidades nem desterrar os limites, as margens do rio. Assim correndo as águas, desvestindo-se as camadas. Assim como crio uma nova linguagem, renomeio o mundo, pequeno mundo. 

Mariana Montenegro
maio/2020

quarta-feira, 13 de maio de 2020

Mais íntima liberdade




Ao despertar me deparo com o livro dos sonhos para ler. Também acordo com assuntos mal resolvidos de dias anteriores. Sinto-me uma bola de neve, pesada e acumulada de coisas. Começo o dia me sentindo feito um camelo. Pressinto o peso do mundo nas costas, desde tempos imemoriáveis, de outros lugares e de muitas pessoas. Quero me esvaziar para conseguir recomeçar, embora esteja tão plena de passado e prenhe de futuro.

Cumpro deveres, limpo a casa, puxo válvulas, olho o relógio. A fase do camelo é a da conservação, mas assim como cada dia encontra seu ocaso, cada fase vive seu declínio. Depois de muito carregar o passado, com seus valores convencionais e sua obediência servil, passo por uma metamorfose. É quando o camelo se transfigura em leão, no caminho mostrado por Zaratustra. Digo um feroz não, solto o primeiro grito de liberdade e posiciono-me firmemente. Por isso, - não mate o leão -, aconselham-me. Aceite sua existência, faça dele um aliado. Mas claro, não esqueça nunca sua natureza e vigiai sempre.

Apesar da força do leão conquistada, é imperioso antever o caminho da fruição. Pressagio uma jornada que me levará ainda mais além de assenhorear-me do poder. Chego ao entardecer, ao crepúsculo da civilização. Lá, num lusco-fusco, intuo um mergulho e um salto num dia fora do tempo, e escuto uma insinuante voz entoar melodias de um novo mundo. É chegada a criança - a terceira etapa da minha metamorfose. Meu máximo potencial de plenitude.

Minha divina criança prescreve seu próprio bem e mal. As fases da conservação e da destruição são superadas. No entanto, o camelo e o leão são integrados, seguindo ao meu lado, como a águia e a serpente. É chegado o eterno instante do fruir na transformação. É chegado o momento altaneiro das danças, dos jogos, da criação e da espontaneidade. Ouço a voz de Nietzsche: “Amo os que só sabem viver em declínio, pois são os que transpõem. Amo os que desprezam com intensidade, pois sabem venerar intensamente”.  

E é assim, com intenso desprezo e veneração que me metamorfoseio na criança. Ela que é a sabedoria de viver; o saber que se sabe sorvendo. Ela que é só abertura, energia vital, o porvir autopoiésico que faz tecer a si num continuum. Sendo ela, sou minha própria autoridade no livro dos sonhos. Torno-me capaz de ouvir a exata linguagem do corpo. Fulguro no agora entregue à experiência.

Finalmente posso dizer: sou singular entre singulares. Engendrada da irrupção do processo de individuação e autopoiese. Se ser ou não ser? Ser e não ser! Eis o sagrado “e”. Nunca se caber, sempre transbordar. Navegar na imprecisão da vida dilatando a velha alma, abarcando sempre mais mundo. Eis que amanheço entre pessoas todas elas cheias de valor, num universo todo a ser desfrutado. É na idade da criança, e quando então me julgarem louca, que terei atingido minha mais íntima liberdade.  

Mariana Montenegro
Ensaio extraído do livro "Singulares" 
2019