domingo, 26 de abril de 2020

A porta aberta


     
Parque Lage/RJ

       Dias antes do início da pandemia fui ao Parque Lage fazer um trabalho com as flores. Seguindo os passos de Edward Bach, procurava flores com a intenção de conhecê-las e extrair delas uma mensagem de cura. Duas flores me chamaram atenção. Uma delas me transmitiu, por suas características visíveis e por vias sutis, impressões de "liberdade, espaço e oxigenação". Em ressonância com a outra flor, senti algo relacionado à "simplicidade e ao essencial". 

    Saí dessa experiência com a lembrança da importância do essencial, e disposta a colocar isso na minha vida diária. Passando a nutrir a ideia de valorizar as coisas simples, de ser feliz com o que eu tenho e sou agora. Curiosamente, pouco tempo depois, veio a pandemia, e o que era um projeto pessoal tornou-se uma realidade coletiva. De repente, a reclusão social compulsória fez com que todos passassem também a ter que se circunscrever ao essencial e ao momento presente. 

     A pandemia acarretou o arrefecimento dos planos pessoais, restringiu os movimentos, mas ela também nos levou a ter que nos voltar para dentro de casa e para dentro de nós. Ela detém nossa diástase, mas não pode impedir a vivência interior de cada um. Na verdade, é isso o que ela nos oferece de positivo, o autoconhecimento e a possibilidade de viver o infinito em potencial que existe dentro de nós. 

      Desse infinito potencial, a cada momento vem à tona uma emoção, um pensamento, uma sensação ou uma intuição diferentes. Existe assim todo um campo de trabalho. Apesar da condição aparentemente limitada, muito se pode aprender e aprofundar em períodos de reclusão. É uma oportunidade de abrirmos as portas da percepção; cultivar a presença, respirar conscientemente, fazer a nossa Yoga. A reclusão pode ensejar uma imersão em vastos conteúdos psíquicos e noéticos. Dentre esses conteúdos, me vêm à mente:

    "Eu Sou a porta aberta"; lugar de vacuidade plena e fértil, do ser não-fixo. A porta aberta que ninguém fecha é um espaço de trânsito, para o fluxo, em que tudo está estavelmente presente no movimento incessante. A porta aberta da alma é também a porta estreita da inteligência, pois para atravessar há que se ter entendido e integrado o paradoxo (a coincidência dos opostos). Em tempos de pandemia, de reclusão, podemos finalmente descobrir essa porta e abri-la. E receber inúmeros convidados, percebendo melhor antigos habitantes, até descobrindo novas afeições e uma ética do cuidado. 

   "Eu poderia viver recluso numa casca de noz e me considerar rei do espaço infinito". Essa exaltação  shakespereana mostra bem a percepção de uma alma que se alargou. Dilatou-se tanto por dentro que é capaz de sentir-se livre ainda que circunstancialmente limitada. Ao se descobrir uma vida rica interiormente que se vive em plenitude. Quero ser uma porta aberta ao espaço infinito, para tornar a nos conhecer assim: alargadas e desabrochadas; até o simples essencial que repousa delicado no jardim da existência. 

Mariana Montenegro


quinta-feira, 23 de abril de 2020

Não ser uma estranha dentro do próprio corpo

    
      


       É de vital importância viver dentro do próprio corpo. A sensação relacionada ao estado de presença é termômetro para medir meu grau de saúde e plenitude. A encarnação, o ato de ir entrando em energia, em consciência, em alma dentro do corpo físico, é um processo. Quando adultos, teoricamente, já teríamos passado por esse processo. No entanto, o que se vê comumente são adultos vivendo fora dos seus corpos físicos, afogados nas emoções e perdidos num turbilhão mental.

     Quando deixamos o corpo físico desabitado, ele se torna propenso ao mau estar, à doença, às correntes que o mobilizam de forma involuntária. Ao mesmo tempo, há que se compreender que, em alguns momentos da vida, viver fora do corpo é uma maneira que encontramos de fugir da dor e das perplexidades da existência. Clarice dizia: "Perder-se, às vezes, também é caminho". Também acontece porque somos levados a crer que a felicidade nunca está aqui, sempre está num outro lugar. Seguindo a dinâmica de fugir da dor e de procurar o prazer. 

     Perder-se pode, às vezes, ser caminho, mas fugir dificilmente será. Segundo Roberto Crema, "perder a cabeça é perder a própria sombra", a qual não deveríamos fugir ou descuidar. Se estamos na companhia da nossa sombra, é possível canalizar as forças que jogam em nós, ao invés de perder a cabeça em euforia (eu fora). Mas com o passar do tempo, com o acúmulo de conteúdo psíquico, com as experiências e suas cargas, a falta de autocontrole leva a um tormento ainda maior e de proporções generalizadas. 

     A pior sensação que conheço é a de habitar um corpo estranho, é não reconhecer o reflexo no espelho. Deixando-o desabitado ficamos propensos a todo tipo de influências. Viver no astral ou no mental, sem conexão com o físico, mantêm-nos vagando soltos pelo espaço, sem um ground. Mas sempre é possível recomeçar, e é bom que sempre se recomece. A cada novo dia, a cada novo luar. Para nascer de novo ancorada, reencontrando-se integrada e em paz com o reflexo no espelho. 


Mariana Montenegro

Bem mais precioso




O tempo é o meu bem mais precioso. Em geral, trata-se o tempo como um hábito destinado à produção e aos afazeres diários, sem levar em conta o quanto ele é imprescindível à vida de uma maneira mais essencial. O sistema global preza o imediatismo, a correria, o sucesso numa fração. E quando podemos parar, simplesmente mantemos esse padrão, ao invés de experimentar outra forma de viver o tempo. Uma que dê tempo ao tempo, que seja sincronizada com os ritmos naturais, a respiração, o fluxo da energia vital.

Acredito que a sabedoria se manifesta em resposta ao momento tal como ele se apresenta. Exige atenção, ausculta e empatia. Existem várias formas de responder a uma mesma pergunta. A resposta correta não é a pré-fabricada, mas aquela capaz de responder ao que se revela num ensejo que traz componentes inéditos e inusitados. Por isso regras e preceitos pouco refletem a realidade. Outro aspecto importante para a relação com o tempo, é pensar um pensamento de cada vez e reconciliar-nos com as pausas e as mudanças.

O passado está aqui e o futuro já chegou. Essa percepção budista traz a consciência de que só existe o agora, e que basta cuidarmos bem desse agora, para resolvermos o passado e para prepararmos melhor o futuro. Uma consciência estável depende da vivência ancorada no instante, nem apressada, nem pressionada. Segundo Meher Baba: “Uma mente muito rápida e inconstante está doente. Uma mente vagarosa, constante e estável está sã. Uma mente que está quieta é divina”.

A mente conhece essa tranquilidade quando experimenta pausas. É a pausa que dá uma sensação mais profunda de tempo, de espaço e de quem somos. Ela nos devolve a acuidade da impermanência dos fatos da vida, dos papéis que exercemos, dos eus que somos transitoriamente. E nos alça a outra dimensão da própria realidade, em que o tempo deixa de ser apenas contado, para ser um tempo de qualidade e profundidade.

Nos filmes de Hayao Miyazaki, como A Viagem de Chihiro, a pausa está sempre presente. É o que o japonês chama de Ma, o vazio. Os símbolos usados para escrever Ma são a combinação dos caracteres Portão/Portal e Sol. Assim entendido, o vazio não é um simples vácuo, ou uma mera ausência encerrada em si mesma, mas uma presença no instante que abre espaço para que algo se manifeste. Por isso, a pausa é sagrada no Oriente, onde não se foge do vazio e do silêncio atrás de constantemente se preencher o tempo e os espaços.

O tempo é o tecido da vida e deve ser aproveitado de maneira que nos humanize, como exaltou Antonio Candido. Não se limita à ação e ao movimento, pois também serve à contemplação e ao vazio. Nesse equilíbrio, é possível ter uma relação mais revigorante com os ciclos. “O momento não tem tempo”, dizia Leonardo da Vinci. Dessarte, procuro medidas de tempo mais valorosas, que sejam confiáveis, como meu pulso cardíaco profundo, e que sejam mais humanizantes, como o tempo dedicado aos afetos e ao conhecimento.

Mariana Montenegro
Ensaio extraído do livro "Singulares", 2019


domingo, 5 de abril de 2020

Reflexões sobre a Meditação da Linha do Tempo da Ascensão



         


         Toda grande crise traz consigo uma força capaz de operar grandes mudanças. A pandemia de 2020 para o mundo, faz com que a humanidade mude hábitos e repense sua forma de vida. É notável que a vida normal sobre a terra já há tempos tornou-se irrefletida, autômata e subutilizada. Como nada acontece por acaso, ou, como com tudo é capaz de se aprender alguma coisa, estamos nesse exato momento de quarentena experimentando outra forma de vida num outro tempo.

No dia 4 de abril de 2020 ocorreu o evento da conjunção de Júpiter com Plutão no signo de Capricórnio. Nesse momento auspicioso, considerado um céu astrológico de grande efeito, foi organizada na superfície da Terra uma meditação coletiva para a erradicação da pandemia. Formou-se então uma enorme egrégora de meditadores por todo o globo, na intenção de frear e pôr fim a este mal que assola a humanidade. De repente, estava unida a pessoas as quais eu jamais imaginei estar assim, na mesma intenção.

O que se viu foi uma grande parcela da humanidade em comunhão, conectada à Noosfera, acolhendo recém-chegados impulsos à evolução, na intenção de adentrar um novo patamar dimensional. A linha do tempo da ascensão marca uma mudança para uma linha de tempo paralela à linha da terceira dimensão, em que transcorreram dominantemente os eventos planetários até então. Esse novo tempo vem com o reconhecimento imperioso da emergência do ciclo evolutivo que se inaugura. A atualizada frequência emerge das condições contemporâneas que levam a novos modos de vida e relacionamentos.

Todo esse cenário me faz reviver uma antiga lembrança poética: O tempo das coisas. Tempos de eternidade, que se conhecem na simultaneidade e na consonância da existência. Semelhante à arte do “Wu wei”, que é a arte de captar a dança das coisas e, com elas, pôr-se a dançar. Antigo paraíso perdido. Atual ideal de vida possível numa outra frequência; nova linha do tempo. Humanidade ascensionada: aquilo que tem o condão de tecer com a própria sinergia da vida.

Mariana Montenegro