terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

Poesia, diário de viagem, enigma? (desentende gênero)


Vivia numa montanha-russa,

fazendo curvas demasiado acentuadas.

Na ausência de botes,

afogava-me facilmente em si mesma.

Sem fio de prumo,

Norte,

ou estrela-guia.


Com a energia da alma

o rio flui

e se enche d´água.

De outra parte

vira ralo

e seca. 


Folha seca desce a corrente,

como tudo é levada pelo vento.

O desespero anuncia a morte,

vida, seu eufemismo: a calma.

Se acalma!

Tempo carece de ritmo,

barco de leme, 

folha de ro rio.


Já fui parede,

de tão dura e impenetrável 

luz não me permeava.

Procurei a porta,

saí porosa.


Oh água que cai do céu!

Inunda o rio que corre

nas margens do meu papel.


Aprender

a ser melhor

para o outro.

Desenvolver o caráter

da alma

e sê-lo.


Acho que dizer o mínimo

é bastante!

Que semear estrelas 

é ofício de tradução

perpétua.


A palavra metafórica é viva;

apenas alusiva, abre caminhos e visões.

A palavra literal, de trilhas já percorridas,

é morta e esqueceu de renascer.


Na pretensão da verdade,

da objetividade, 

minto.

Nos devaneios da metáfora, 

inventando, 

sou verdadeira. 


A palavra precisa encontrar o silêncio inaudito.

Só assim dirá completa um sentido.  


O livro da noite

fechado na aurora,

e o livro do dia 

mal se lerá.  


Soante uma voz genuína 

que escuta o murmúrio de fundo

e que se conhece nas formas da luz. 


Minha incompletude é minha continuidade com o todo. 

Mariana Montenegro

fevereiro de 2022



Nenhum comentário:

Postar um comentário