quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

O poeta desce a montanha

 O poeta desceu a montanha, e num misto de entusiamo e inquietação, vendo o povo reunido na praça, quis contar o que descobriu nos cumes:

- Acordem!
O céu está desabando,
a terra vai rachar.
Escutem os seus velhos xamãs.
-Alarguem o estreito!
Sejam de verdade,
não fantasmas.
Em estado de alma
vivifiquem cada momento.
- Imaginem suas próprias imagens!
Este é o seu mundo: aquele que você pode imaginar.
O resto são sombras de imagens alheias.
- Enquanto é tempo!
E adiem o fim,
e façam durar.
O povo achou que era um louco, não deu bola ao poeta, que, sem audiência, nem concorrência, seguiu por trilhas desconhecidas da multidão da praça.
(MM. noite de 17 de fevereiro de 2022)

terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

Poesia, diário de viagem, enigma? (desentende gênero)


Vivia numa montanha-russa,

fazendo curvas demasiado acentuadas.

Na ausência de botes,

afogava-me facilmente em si mesma.

Sem fio de prumo,

Norte,

ou estrela-guia.


Com a energia da alma

o rio flui

e se enche d´água.

De outra parte

vira ralo

e seca. 


Folha seca desce a corrente,

como tudo é levada pelo vento.

O desespero anuncia a morte,

vida, seu eufemismo: a calma.

Se acalma!

Tempo carece de ritmo,

barco de leme, 

folha de ro rio.


Já fui parede,

de tão dura e impenetrável 

luz não me permeava.

Procurei a porta,

saí porosa.


Oh água que cai do céu!

Inunda o rio que corre

nas margens do meu papel.


Aprender

a ser melhor

para o outro.

Desenvolver o caráter

da alma

e sê-lo.


Acho que dizer o mínimo

é bastante!

Que semear estrelas 

é ofício de tradução

perpétua.


A palavra metafórica é viva;

apenas alusiva, abre caminhos e visões.

A palavra literal, de trilhas já percorridas,

é morta e esqueceu de renascer.


Na pretensão da verdade,

da objetividade, 

minto.

Nos devaneios da metáfora, 

inventando, 

sou verdadeira. 


A palavra precisa encontrar o silêncio inaudito.

Só assim dirá completa um sentido.  


O livro da noite

fechado na aurora,

e o livro do dia 

mal se lerá.  


Soante uma voz genuína 

que escuta o murmúrio de fundo

e que se conhece nas formas da luz. 


Minha incompletude é minha continuidade com o todo. 

Mariana Montenegro

fevereiro de 2022



sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

A lida com as forças



O sofrimento de alguém. 

Uma dor que não sei de onde.

Até que o meu corpo eminente indica;

somatiza, sente.

E, percebendo, o rosto da dor começa a se formar.

A força atuando num jogo com outras tão primais quanto. 


Então, levando-as todas para o coração, 

fazemos uma atenta conferência.

Lá (no coração) não há crença alguma para se escorar, 

além da aceitação e do amor (sabedoria),

para lidar com elas, de início tão cegas e brutas.


As forças, vindas do Fundo incomensurável e indefinível,

com a conversa, vão abrandando e ganhando forma.

Já as vejo mais claramente, e elas, a mim.

Primeiro, trocamos farpas, depois, figurinhas.

Fazemos um acorde musical, 

e, finalmente, dançamos, 

na glória do Amor conciliador.


Mariana Montenegro

fevereiro de 2022