domingo, 13 de junho de 2021

O herói evoluído

 


ERA ANTIGAMENTE. O herói queria mudar o mundo, mas, ele mesmo, continuava igual. Tentava se colocar no patamar dos deuses, e acabava nos grandes erros trágicos – se ferrando solenemente. Usurpando do poder como um voluntarioso guiado pelo seu pretenso livre-arbítrio.

QUANDO FOI MODERNO, o herói já queria outras coisas. Muitas possibilidades se apresentavam a ele, que duvidava tanto, de tudo, a ponto de não acreditar mais em nada, nem em si. Foi um derrotado convicto da sua condição de vítima e da sua impotência perante a realidade.  

FINALMENTE NO AGORA o herói é outro sujeito. Não se coloca acima, nem abaixo, mas justo no meio. Atua como um facilitador dos processos da vida. Já não tão propenso ao arbítrio; mais interessado em agir conectado do que agir descolado. 

O HERÓI agora busca superar a si mesmo. Sabe do seu limite, mas também do seu alcance. E que suas ações podem ser até pequenas, em extensão, mas ter um impacto verdadeiro e profundo. Sua meta de superação é para se tornar melhor para o outro e para o mundo em que vive.

EVOLUIU não à condição dos deuses, mas à condição humana. Talvez, esta sim, a condição almejada pelos próprios deuses.

Mariana Montenegro

junho de 2021

domingo, 6 de junho de 2021

A saída do limbo

 

"Quem elegeu a busca, não pode recusar a travessia". (Alfredo Bosi)

"O inferno e o paraíso estão dentro de nós;
 é uma escolha de cada momento". (Guy Lussier)

Beatriz atravessou o ponto sem retorno da estrada, mas ainda vacilante, tornava a regressar por atalhos. Vivendo entre a periferia de si e a multidão segura. Assim, em verdade, não saía do lugar; tinha uma falsa impressão de movimento, com um pé em cada canoa.

Tão só permanecia nesse fatídico limiar. Embora pressentisse o quanto se furtava, que não fazia o seu melhor. Que vivia era bem da casca para fora; fosse, em veleidade, ou mesmo, se alquebrada. Mas um dia, naufragada em si, teve a visão.

Viu que estava no limbo – naquele primeiro círculo do inferno. 

Rememorou o letreiro da porta: “Deixai, ó vós, que entrais, toda a esperança”. E sentiu um calafrio. Mas a aliviou o fato de que o limbo é apenas um lugar de suspensão (não precisaria ainda rastejar). Ela estava ali por sua indecisão, por se inclinar ao nada, ou a qualquer nota.

Em outras palavras, o limbo de Beatriz era a pasmaceira, que ela cansou de sustentar. Foi então seguindo pela estrada, e, ao invés de pegar o retorno, decidiu finalmente seguir em frente. No caminho ouviu a solene anunciação de Dante: “Não fostes feitos para viver como brutos,/mas para seguir virtude e conhecimento”.

Depois disso, Beatriz firmou-se na senda da aprendizagem e foi ganhando alma. Passando a dar passos do seu tamanho, nem mais largos nem mais curtos, apenas condizentes. Sempre disposta à purificação, à correção. Vendo beleza nesse processo. Ficando até inocente pôde ouvir de não muito longe o repicar dos sinos de que ela gostava, às portas do céu.

Mariana Montenegro

junho de 2021