"Temo somente uma coisa: não ser digno do meu tormento"
(Dostoievsky)
Como é contado no livro "Em Busca de Sentido": "No campo de concentração, todas as circunstâncias conspiram para fazer o prisioneiro perder o controle. Todos os objetivos comuns da vida estão desfeitos. A única coisa que sobrou é a "última liberdade humana" - a capacidade de escolher a atitude pessoal que se assume diante de determinado conjunto de circunstâncias".
Não bastava a ele atravessar a tragédia dos campos para sobreviver no pós-campo, mas ele buscava encontrar sentido naquela própria vida de sofrimento em que vivia. Procurando entender o que fazia com que uns atravessassem aquela situação melhor e outros pior, ele observou que aqueles que não entregavam os pontos espiritual e humanamente, eram os que não sucumbiam em sua evolução de caráter às influências do ambiente.
Isso mostra que ainda que a pessoa não possa mudar uma situação, ela pode mudar a si mesmo, pode atribuir sentido tanto ao sofrimento quanto à felicidade, tanto à vida quanto à morte. Spinoza também dizia que "a emoção que é sofrimento deixa de ser sofrimento no momento em que dela formamos uma ideia nítida e clara". Ter a humildade de aprender com o sofrimento, de vê-lo como um professor, ajuda mais do que negá-lo, do que resistir a ele ou simplesmente se deixar sucumbir.
Mas alguns dirão, e com razão, que isso não torna certas situações devastadoras menos devastadoras. Por isso a pergunta: - Como, apesar de todos os pesares da vida, ela pode ainda ser bem-aventurada e vista com algum otimismo? Viktor Frankl responde da seguinte forma:
1-Transformar o sofrimento numa conquista e numa realização humana.
2-Extrair da culpa a oportunidade de mudar a si mesmo para melhor.
3-Fazer da transitoriedade da vida um incentivo para realizar ações responsáveis.
E para tal, além de assumir a responsabilidade e produzir sentido, o ser humano precisa aprender sobre a auto-transcendência:
"(...) compreendo o fato antropológico original que o ser humano deva sempre estar endereçado, deva sempre apontar para qualquer coisa ou qualquer um diverso dele próprio, ou seja, para um sentido a realizar ou para outro ser humano a encontrar, para uma causa à qual se consagrar ou para uma pessoa a quem amar. Somente na medida em que consegue viver essa transcendência da existência humana, alguém é autenticamente homem e autenticamente si próprio".
Com esse "otimismo trágico" e sua "vontade de sentido", Viktor Frankl respondeu à altura dos fatos da sua vida, foi digno de seus tormentos. Assumiu a responsabilidade, não deixou de ser sujeito, mesmo em condições em que negaram sua própria legitimidade como sujeito de existência. Assim exerceu sua liberdade última e mais íntima; não podendo evitar os tormentos, escolheu sua atitude diante deles. Não só os atravessou e sobreviveu a eles, como também viveu para contar a história e a ultrapassar.
Mariana Montenegro



