segunda-feira, 30 de março de 2020

Atravessar e ultrapassar



  
"Temo somente uma coisa: não ser digno do meu tormento"
   (Dostoievsky)

      Suportar certas condições depende da atitude frente ao que acontece, e não da condição enfrentada em si. Numa situação de calamidade, é preciso superar a chamada "neurose noogênica", que é a incapacidade de encontrar sentido e um senso de responsabilidade na própria existência. É o que ensinou o neuropsiquiatra e fundador da Logoterapia Viktor Frankl, judeu sobrevivente dos campos de concentração nazista.

    Como é contado no livro "Em Busca de Sentido": "No campo de concentração, todas as circunstâncias conspiram para fazer o prisioneiro perder o controle. Todos os objetivos comuns da vida estão desfeitos. A única coisa que sobrou é a "última liberdade humana" - a capacidade de escolher a atitude pessoal que se assume diante de determinado conjunto de circunstâncias".

     Não bastava a ele atravessar a tragédia dos campos para sobreviver no pós-campo, mas ele buscava encontrar sentido naquela própria vida de sofrimento em que vivia. Procurando entender o que fazia com que uns atravessassem aquela situação melhor e outros pior, ele observou que aqueles que não entregavam os pontos espiritual e humanamente, eram os que não sucumbiam em sua evolução de caráter às influências do ambiente.

     Isso mostra que ainda que a pessoa não possa mudar uma situação, ela pode mudar a si mesmo, pode atribuir sentido tanto ao sofrimento quanto à felicidade, tanto à vida quanto à morte. Spinoza também dizia que "a emoção que é sofrimento deixa de ser sofrimento no momento em que dela formamos uma ideia nítida e clara". Ter a humildade de aprender com o sofrimento, de vê-lo como um professor, ajuda mais do que negá-lo, do que resistir a ele ou simplesmente se deixar sucumbir.

    Mas alguns dirão, e com razão, que isso não torna certas situações devastadoras menos devastadoras. Por isso a pergunta: - Como, apesar de todos os pesares da vida, ela pode ainda ser bem-aventurada e vista com algum otimismo? Viktor Frankl responde da seguinte forma:

1-Transformar o sofrimento numa conquista e numa realização humana.
2-Extrair da culpa a oportunidade de mudar a si mesmo para melhor.
3-Fazer da transitoriedade da vida um incentivo para realizar ações responsáveis.

    E para tal, além de assumir a responsabilidade e produzir sentido, o ser humano precisa aprender sobre a auto-transcendência:

"(...) compreendo o fato antropológico original que o ser humano deva sempre estar endereçado, deva sempre apontar para qualquer coisa ou qualquer um diverso dele próprio, ou seja, para um sentido a realizar ou para outro ser humano a encontrar, para uma causa à qual se consagrar ou para uma pessoa a quem amar. Somente na medida em que consegue viver essa transcendência da existência humana, alguém é autenticamente homem e autenticamente si próprio".

   Com esse "otimismo trágico" e sua "vontade de sentido", Viktor Frankl respondeu à altura dos fatos da sua vida, foi digno de seus tormentos. Assumiu a responsabilidade, não deixou de ser sujeito, mesmo em condições em que negaram sua própria legitimidade como sujeito de existência. Assim exerceu sua liberdade última e mais íntima; não podendo evitar os tormentos, escolheu sua atitude diante deles. Não só os atravessou e sobreviveu a eles, como também viveu para contar a história e a ultrapassar.


Mariana Montenegro




sábado, 28 de março de 2020

Medidas Singulares



 Pessoa elevada até ser humano

Desabrochado sobre o lodo e a corda bamba 

 Estar aberta a tudo 

E ao mesmo tempo 

criar canaletas, 

aparar as arestas

das rochas que não se aplainam por si. 

Sacralizando tudo


     


       Gosto muito da palavra sagrado, porque ela remete àquilo que a gente tem respeito e devota o máximo valor.

     Tudo ao meu alcance, mesmo as menores coisas, podem ser dotadas desse caráter, revestidas com uma aura, quando tenho uma relação de tato delicado com elas. 

      A mesa que aqui está diante de mim, eu devo ter uma beneficência com ela, esse celular em que eu aperto esse botão, a maneira que eu falo com você, que eu tenha uma suavidade com tudo.

      Pois é a maneira como eu me relaciono com as coisas que pode torná-las sagradas. 

     Busco a transcendência para adquirir a Força, o Amor e a Sabedoria capazes de dotar meu tato de uma energética tal que eu adquira deferência para com a existência. 

    Para isso me conecto, preciso sair do ego pequeno da minha pessoa, a ponto de esvaziamento e abertura, para que a Luz entre. 

     O "eu", por ele mesmo, é um circuito fechado. Abro-me ao "não-eu", a algo maior, a um estado de percepção não focado no ego, em si mesmo, mas no outro, até aquele/aquilo Totalmente Outro.

    Olhando de dentro do olhar que descansa, auto-transcendente e auto-distanciado, tudo é delicado e valioso feito pedra preciosa. 

sábado, 21 de março de 2020

Pela dor, somos um só




Graças à uma pandemia, a um vírus, o mundo para.

A poluição se reduz, Gaia respira aliviada; está se curando de nós.

A humanidade considera a possibilidade do próprio aniquilamento.

Vê-se tendo que atentar ao seu comportamento, 

à própria consciência para sobreviver.

A vida, de repente, é mais agora do que nunca.

O egoísmo dá lugar ao cooperativismo.

O individual ao coletivo.

Ação, coração e consciência se unem.

A humanidade, pela dor, experiencia ser uma só. 

Nesse cenário apocalíptico, todos são colocados à prova.

Nada será como antes, nem a humanidade, nem a sociedade, nem seus paradigmas.

É finalmente a crise da crisálida: ou nos transformamos ou sucumbimos.