segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

Nostalgia do tempo


"Com ordem e com tempo, tudo se faz, e se faz bem", dizia Pitágoras. 

Chico: "Não se afobe não, que nada é pra já". 

"Tempo, tempo, tempo, tempo", na amorosa melodia de Caetano. 

Para citar algumas considerações com respeito. 

Até que superado o tempo pelo instantâneo. 

Hoje, rouba-se dele tanto, até no amor se rouba do tempo; do encontro ao botão no app. 

Ou em narrativa de "story" - o efêmero em carrossel alucinante.

Muita informação e pouco conhecimento. 

Opção pelo "caminho curto e longo", ao "caminho longo e curto". 

Estações, marcas, construções, na contramão.

Que deslocados e definitivamente:

Não são desse tempo sem tempo.


Mariana Montenegro

dezembro de 2021



Ode à luz



Se a meta é cristalina,

todas as faces precisam ser iluminadas.

A direção mais exata da estrela. 


Iluminação com condição,

mas só de abertura.

E o necessário polimento diário.


Gratuita é a luz, 

mas nós que retiramos os obstáculos 

que criamos a ela. 


Como um cristal sem opacos,

de luz transpassada,

em transparescência. 


E aparecem aos olhos:

hostes xapiris e estelares distantes. 

Tudo o que não pode ser visto.



Mariana Montenegro

dezembro de 2021



quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

Não olho story


Só passa.

Mal se vê.

Tão pouco.

Tão rápido. 

Quero reparar.

Olhar e ver.

A iluminação do tempo.


Mariana Montenegro

dezembro de 2021



quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

Sensível


Dilacerações no peito.

Batidas de cabeça.

Reunindo cacos. 

Somando renascimentos.


Nisso, oito horas por dia, pelo menos, desaprendendo. 

Mil véus descortinando.

Até o oco.

A entrada da luz.


De embrutecimento não sofre. 

Autêntica pessoa.

Que aplaina pedreira.

E acha nela rosas. 


Mariana Montenegro

dezembro de 2021

domingo, 12 de dezembro de 2021

Da dificuldade da crítica


Causa-me espanto uma entrevista de Antônio Candido (considerado entre os maiores críticos literários brasileiros). Na entrevista, ele diz que corria perigo fazendo críticas diárias no jornal. E que deu sorte de avaliar bem Guimarães Rosa e Clarice Lispector na primeira leitura, ainda sem os conhecer. Antônio Cândido, com toda a sua erudição, discernimento e penetração. Antônio Cândido, um observador fidedigno, conhecedor daquele universo. Tinha noção do perigo da crítica, da precariedade, da chance de se equivocar. Fico pensando o que ele acharia da facilidade das críticas instantâneas disseminadas hoje. E imagino que ele não teria nada para achar.  

dezembro de 2021

sábado, 11 de dezembro de 2021

Superfície perfeita

 

Não desvio mais de você por não me ver.

Por ver em mim o seu avesso.

Fique à vontade.

Até me ofereço uma tela.

Projete suas sombras em mim.

Sou a superfície perfeita. 

Serei assim agora para você.

Mas não pense isto:

que fiquei promíscua.

Simplesmente, desencanei.

De posse de mim,

não tomo mais pessoal.

Quem sabe um dia até me verá em você.

Para além das suas próprias ilusões.


Mariana Montenegro

dezembro de 2021

quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

Seres

Camadas de ser.

Superficial. 

Profundo.

Que mergulha, sobrevoa, boia.

Reflete ou experiencia.

Vai variando.


Ego é ser.

Alma é ser.

Não-ser é um outro ser.

Tudo é ser.

Que sendo é.

Não rejeite partes e integre só pra ver.


Mariana Montenegro

dezembro de 2021


Pensamentos e aforismos da quarentena

Todo dia procuro meu coração e um novo ponto de equilíbrio.

Vivo sem pautas, atenta aos sinais.

Bem viva morro em cada ação.

Base na presença, não na identidade.

Quem não é também o outro é menos do que poderia ser.

Todo o inconsciente que eu puder abarcar na direção da minha constelação.

As pessoas ruminam o que deveria ser abstraído e abstraem o que deveria ser valorizado.

Na revelação a reminiscência se atualiza.

Melhor se lê verticalmente.

Depois de coincidirem os opostos se transcendem.

Não existe um estado permanente, mas um estado fluente.

O futuro vem antes, o passado é a substância do tempo, o presente a vida eterna.

A taça só derrama o conteúdo que contém.

Só o mundo transfigurado é possível.

O pensamento e a emoção têm prazo de validade, não devem se instalar, mas passar mantendo a circulação, a fluidez das ondas de vida.

Unida ao que acontece agora, e às pessoas como são agora, não há medo.

Se a pessoa não aprendeu a ser feliz no processo não será no resultado.

O senso comum ensina a olhar o mundo em termos de bem ou mal. O senso outro é olhar se ‘estou integrando’ ou se “estou dividindo/excluindo”.

A imagem translúcida da alma é de uma centelha sempre nascente e ardente.

Mariana Montenegro
2020-2021

Coerência x congruência

“Me contradigo porque sou vasto”, dizia Pessoa.

Que uma pessoa plena não é coerente,

apresenta diferentes facetas,

muda sempre,

para sempre ser ela mesma.
Outra coisa é a congruência.

O alinhamento entre o que se faz, o que se pensa e o que se sente.

Sem divisão interna.

Tocando as diferentes notas do momento presente.

Em conciliação.
Mariana Montenegro
dezembro de 2021

quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

Ser do processo, ser da trilha


- "Você já viu um rio?"

- "Sim"

-"Para ver um rio você tem que ver da nascente ao logradouro".

- "Então, de fato, não".

-"E você já viu um ser humano?"

(o diálogo eu escutei na Unipaz)

MM