quinta-feira, 30 de setembro de 2021

Pequena como eu, incomensurável como outro


Olho pela janela e me surpreendo vez em sempre com o amarelo que verdejou.

Aspiro o sumo que se quer comido e gozo a liberdade do instante.

A paisagem enlaço do íntimo. 

Pequena como eu, incomensurável como outro.


No sobrado, ora canto, ora silencio.

Só a alegria me aproxima do céu.

E a dignidade do reles sobre o chão.

Para transcender e ascender, primeiro aceito e amo.


O lusco-fusco da Ave Maria

insinua a noite que vai descendo à minha janela. 

Sereno, fôlego, gestação.

É tudo novo e outro de novo.


Mariana Montenegro

setembro de 2021







quarta-feira, 29 de setembro de 2021

Não-decomposto


Não-binário e +: não-decomposto.

Em letras, partículas, identidades fixadas.

Móvel no agora, existente na relação.


Partículas demarcam posição. 

Entrincheiradas pelo julgamento e pela exclusão.

E rótulo, como a fofoca,

serve ao controle.


Como poderá - ser integral de possibilidades?

Desclassificadamente. 

Se estão claras as categorias, o todo permanece difuso.

Mas somadas as partes, o todo é ainda maior.


Mariana Montenegro

setembro de 2021





sábado, 25 de setembro de 2021

Polos


"Os acontecimentos são metáforas do Processo"

(Roberto Crema)

Um continente de gelo derrete.

Boiam já sem destino 

tábuas de lei e de salvação.


As grandes verdades e identidades 

desprendem-se como blocos

e desabam com o próprio peso.


A perigosa liberdade

vai se atrevendo,

desfazendo os mais rijos extremos contornos.


Os polos viram ondas, encontram-se em mar.

A mesma água se redescobre em resposta.

Aprendendo a fluir.


Mariana Montenegro

Primavera de 2021



sexta-feira, 17 de setembro de 2021

Fernandona e Clarice

"Deus só frequenta as igrejas vazias"

Nelson rodrigues


Uma história da Fernandona que eu adoro (com as minhas palavras):

A atriz Fernanda Montenegro volta do Oscar - depois da indicação que a colocou num patamar internacional - e decide fazer a peça de um amigo dela; uma peça "simples", "menor", "caseira", na avaliação dos entusiastas e críticos, que dizem a ela:

- Fernanda, você precisa fazer um Shakespeare, uma grande personagem, um clássico agora.

E Fernanda responde:

- Eu não estou competindo comigo mesma.

E outra da Clarice Lispector:

Nelson Rodrigues lança uma peça e grande parte do público e da crítica fica horrorizada, chamando ele de depravado e de imoral pra baixo. Clarice assiste, e, ao fim, diz:

- "É um menino".

E se encanta para sempre com ele.

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Mariana Montenegro

setembro de 2021