O vento
soprando suave embala o cair da noite, de luar cheio e azulado. Monções e
brisas soam aos ouvidos que auscultam canções, vindas de diferentes regiões e
culturas longínquas. Voejam as canções que pousam na Árvore dos Cantos. Árvore
sagrada do Povo em Pé, arquivo etérico dos peregrinos. Reunião de vozes, não de
ecos. Assim é.
A Árvore dos
Cantos conserva a sabedoria perene dos ancestrais. Portadora das chaves dos três
mundos - Mundo de Baixo, Mundo do Meio e Mundo do Alto. Ela possui vários
ramos, a se perderem de vista, que alcançam o peito do céu. Peregrinando pelos
três mundos reuni umas tantas: francesas, californianas, celtas, alemãs,
nordestinas, latinas, tupis, intergalácticas.
Canções servem
à medicina, servem à festa. Cultivam a vibração alta e o pensamento elevado. Foi
por isso que percorri mundos e fundos para criar uma Árvore que fosse bastante frondosa.
Com uma canção, foi preciso perseverança. Eu fazia uma aula da Escola do
Desvendar da Voz, e, um sopro, a Harmonie der Sterne, tocou forte meu coração.
Cantamos por
uma hora, e eu, muito alegre. Quando a aula terminou, com a dispersão do coro, perdi
a maestrina de vista. Passei dias atrás dela, até convencê-la a me entregar a
canção alemã. Depois de mais uns dias, finalmente, ela me entregou a pauta
dizendo: “Aqui está! Tome sua música”. Meu coração de criança deu pulos de
alegria! A Harmonie der Sterne era a posse de um tesouro.
Certas canções
não são apenas canções, mas veículo do mistagogo pelos espaços. Há cantos que brotam
do mais profundo silêncio, fonte das canções da harmonia, do amor e da alegria.
De onde também se forjam os veículos sutis que transportam os espíritos de mundo em
mundo, de dimensão em dimensão.
Mas essa
historinha da escola só aconteceu depois da curva da estrada, quando encontrei
a Encantadora de Ossos - catalisadora das transformações. A Encantadora é aquela
que tem o ofício de trazer os mortos de volta à vida. No dia que a encontrei, ela
soprou em meus ossos, e me ressuscitou do pó. Certa vez, fui visitá-la na
terceira margem do rio onde morava.
Levei a ela um
presente - a canção de poder que havia conquistado após semanas perturbando a
professora de música. A Encantadora de Ossos ficou muito feliz com a inspiradora
canção étnica e a colocou em sua própria Árvore dos Cantos. Penso que, através
dela, poderá auscultar os mistérios e até reanimar outros fantasmas que
perambulam pelo mundo.
Deveras agradecida,
pegou antigos ossos para instrumento, e cantou em português: “Assim como as
estrelas vibram todas cheias de harmonia/ Assim todos os humanos na terra
possam viver harmoniosos/No pequeno e no grande, irradia o mundo de Deus”.
Mariana Montenegro
outubro/2020

