quinta-feira, 29 de outubro de 2020

A Árvore dos Cantos e a Encantadora de Ossos

 

O vento soprando suave embala o cair da noite, de luar cheio e azulado. Monções e brisas soam aos ouvidos que auscultam canções, vindas de diferentes regiões e culturas longínquas. Voejam as canções que pousam na Árvore dos Cantos. Árvore sagrada do Povo em Pé, arquivo etérico dos peregrinos. Reunião de vozes, não de ecos. Assim é.

A Árvore dos Cantos conserva a sabedoria perene dos ancestrais. Portadora das chaves dos três mundos - Mundo de Baixo, Mundo do Meio e Mundo do Alto. Ela possui vários ramos, a se perderem de vista, que alcançam o peito do céu. Peregrinando pelos três mundos reuni umas tantas: francesas, californianas, celtas, alemãs, nordestinas, latinas, tupis, intergalácticas.

Canções servem à medicina, servem à festa. Cultivam a vibração alta e o pensamento elevado. Foi por isso que percorri mundos e fundos para criar uma Árvore que fosse bastante frondosa. Com uma canção, foi preciso perseverança. Eu fazia uma aula da Escola do Desvendar da Voz, e, um sopro, a Harmonie der Sterne, tocou forte meu coração.

Cantamos por uma hora, e eu, muito alegre. Quando a aula terminou, com a dispersão do coro, perdi a maestrina de vista. Passei dias atrás dela, até convencê-la a me entregar a canção alemã. Depois de mais uns dias, finalmente, ela me entregou a pauta dizendo: “Aqui está! Tome sua música”. Meu coração de criança deu pulos de alegria! A Harmonie der Sterne era a posse de um tesouro.

Certas canções não são apenas canções, mas veículo do mistagogo pelos espaços. Há cantos que brotam do mais profundo silêncio, fonte das canções da harmonia, do amor e da alegria. De onde também se forjam os veículos sutis que transportam os espíritos de mundo em mundo, de dimensão em dimensão.   

Mas essa historinha da escola só aconteceu depois da curva da estrada, quando encontrei a Encantadora de Ossos - catalisadora das transformações. A Encantadora é aquela que tem o ofício de trazer os mortos de volta à vida. No dia que a encontrei, ela soprou em meus ossos, e me ressuscitou do pó. Certa vez, fui visitá-la na terceira margem do rio onde morava.

Levei a ela um presente - a canção de poder que havia conquistado após semanas perturbando a professora de música. A Encantadora de Ossos ficou muito feliz com a inspiradora canção étnica e a colocou em sua própria Árvore dos Cantos. Penso que, através dela, poderá auscultar os mistérios e até reanimar outros fantasmas que perambulam pelo mundo.

Deveras agradecida, pegou antigos ossos para instrumento, e cantou em português: “Assim como as estrelas vibram todas cheias de harmonia/ Assim todos os humanos na terra possam viver harmoniosos/No pequeno e no grande, irradia o mundo de Deus”.

Mariana Montenegro

outubro/2020

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

Entre o povo da mercadoria e o povo da terra: o conto da índia Branca

     


         Apagada a luz da casa, ergue os olhos ao céu à procura de uma estrela. A casa acesa causava tristeza, deixando a tudo ver. Sentia saudade de um cenário outro. Eram os olhos de uma mulher indígena, que não estava mais bem consciente de si, desde que foi viver entre o povo da mercadoria. Ela era uma das últimas remanescentes de uma nação da Amazônia Real, que fora exterminada pela ganância, pela violência e pelas epidemias.

Mas se deixando permear, apaixonou-se pelas mercadorias e recebeu o nome de Branca. Trabalhando incansavelmente pelas mercadorias e morrendo por elas, como todos desse povo. Também é hipnotizada pelas telas e adquire todas que pode com seus recursos. Só contempla as imagens das telas. Perde a capacidade de imaginar e de ter visões próprias. Esquece as histórias do povo originário de onde vem, tentando aprender essas novas histórias feitas de pensamentos curtos. 

Mas a cada dia se sentia mais falsa e mais triste consigo. De todas as maneiras tentou se resignar ao destino que lhe foi imposto. Até o dia em que uma névoa pestilenta a toma por inteiro, levando embora seus últimos alentos de esperança. Inundada numa má-água, Branca pensa em abreviar sua vida cometendo suicídio. Chegando ao ponto de não suportar mais a dor, com a perda da sua alma e de tamanha falta de sentido no mundo.  

Quando então ela decide ir ao encontro do último pajé da sua tribo, que vivia nos restos da floresta, à beira de um rio lamacento. Viaja até lá e, chegando, confessa ao pajé os pensamentos da sua mente adoecida. Depois de ouvir atentamente, ele oferece a ela a medicina da floresta. Prepara um chá do cipó e da folha de uma árvore sagrada. Ainda criança ela via os maiores tomando e sentia medo, mas nesse momento já não sentia nada, e então, simplesmente tomou.  

 Seu pensamento se expande em todas as direções e a índia começa a ver a terra como seu povo a via: uma terra viva que tem coração e que respira. Seu sentimento se aprofunda e ela percebe a presença de uma criança habitante da floresta, que a chama e conduz até o pé de uma grande montanha. Chegando lá, começam a aparecer inúmeros espíritos da floresta, que rodopiam em torno dela numa dança, rindo sem parar.

Os espíritos da floresta roubam sua imagem falsa, e mostram a queda do céu dessa civilização. Primeiro tiram a máscara do semblante de mentira, deixando seu rosto vazio como o rosto de um fantasma. Depois da algazarra, os espíritos mostram a ela uma cena, em que o povo da mercadoria aparece desabando do alto de uma enorme edificação. Na queda ela ouve gritos, tudo fica coberto de fumaça, formam-se pilhas de cadáveres de onde saem almas despedaçadas sem rosto.

Essas almas em desespero ainda tentam comer a terra. Até o último momento querem devorar tudo o que podem. Quando então o chão começa a se abrir, muitos são sugados e desaparecem. A cena apavora e ela pede ajuda aos espíritos da floresta. Depois que aquelas imagens somem, a índia se vê em outro lugar, bastante diferente, onde pode sentir o ar despoluído até o pensamento.  

Surgem seres vindos do Sol, de corpo translúcido e uma beleza sem igual. Os pés desses seres não pisam nesta terra, apenas pairam, com elegância e leveza. Sentindo o perfume que vinha deles a índia é inebriada de pureza. Finalmente, quando lançam um olhar sobre ela, o olhar é um olhar sem suspeitas. São espelhos de luz, em que um simples mirar é capaz de devolver a inteireza. Os seres revelam que vêm repovoar a terra, trazendo de volta os povos originários, com toda a justiça e a glória.  

Branca vê todas essas imagens e, ao fim, diante do pajé, diz que não irá mais causar nenhum mal a si mesma. Nunca mais. E voltando ao mundo do povo da mercadoria, já é outra. Não sente prazer com as imagens que vê lá, mas tampouco sofre delas mais. Recuperou sua imagem verdadeira e tem agora suas próprias visões. A criança continuou com ela, e também os espíritos das águas e dos peixes, que diziam: É contra a correnteza mesmo que, um dia, nós e a terra se alumiará!  

Mariana Montenegro

outubro/2020