No
crepúsculo, é chegado o momento do pássaro ser liberto do martírio da gaiola,
da alma deixar seu endereço físico. Também com lamento deixar esse corpo -
lavra de oportunidades tantas! Escola de metamorfoses, território das múltiplas
integrações, campo para o alargamento da alma...
Na
experiência vivida, a morte me convidou a ir além do visível, e eu, dada,
aceitei seu convite. Vislumbrei a saída do Sopro. Escutei os passos dela na
estrada. Toda uma existência foi passada num segundo. Dos relatos de uma vida
em memórias ao retrato fiel da presença ora eternizada.
Ponto
a ponto, costurei o assombro e a graça do instante final da saída da luz. Num
autêntico rito da glória do amor, mergulhada em pranto e hasteada em alegria,
vivi a morte da minha mãe. Todavia é preciso dar o devido crédito a meu
arrebatamento: Amor Divino. Pois que um amuleto sagrado é guardado no coração
humano, como um cristal que só faz reluzir.
-
Amor alado, milagre para ti, é coisa corriqueira!
Nesse
rito, é preparada a barca para a travessia da alma até a outra margem. Hostes
angélicas, entes queridos, seres de luz, todos eles a esperam do outro lado. A
vida continua na eternidade. Leitmotiv ad eternum. E tudo cabe num coração que
se abre, da alma que vem ao mundo se alargar do mundo e mais além.
Pois
que o amor é o maior poder, é o que é eterno, é o que cura. Amor que é aceitação
plena. Amor-caminho-da-vida, amor-ponte-para-o-infinito. Só o amor não se
declina. Diante do qual a morte é tabu superado, a vida eterna é reencontrada.
Essa
liturgia é feita da chama que não se pode apagar. Na aparente estação terminal,
o invisível se mostra claro como a água, e nos vemos uns aos outros como somos.
Aquilo que reúne o instante fatal à eternidade é o único sagrado - o AMOR. Tudo
o mais é só passageiro, é poeira, é nada.


