segunda-feira, 22 de junho de 2020

Vivendo a morte




“A morte não é o apagamento da luz, é o ato de dispensar a lâmpada porque o dia já raiou”.
Tagore


    Diante da morte havia uma fresta para o sagrado da vida. No horizonte vespertino, lá no ocaso da existência, estava o muro intransponível. Minha mãe o encontrou, e a certeza é que eu também o encontrarei um dia, quando chegada àquela curva decesso da estrada.

No crepúsculo, é chegado o momento do pássaro ser liberto do martírio da gaiola, da alma deixar seu endereço físico. Também com lamento deixar esse corpo - lavra de oportunidades tantas! Escola de metamorfoses, território das múltiplas integrações, campo para o alargamento da alma...

Na experiência vivida, a morte me convidou a ir além do visível, e eu, dada, aceitei seu convite. Vislumbrei a saída do Sopro. Escutei os passos dela na estrada. Toda uma existência foi passada num segundo. Dos relatos de uma vida em memórias ao retrato fiel da presença ora eternizada.

Ponto a ponto, costurei o assombro e a graça do instante final da saída da luz. Num autêntico rito da glória do amor, mergulhada em pranto e hasteada em alegria, vivi a morte da minha mãe. Todavia é preciso dar o devido crédito a meu arrebatamento: Amor Divino. Pois que um amuleto sagrado é guardado no coração humano, como um cristal que só faz reluzir.

- Amor alado, milagre para ti, é coisa corriqueira!

Nesse rito, é preparada a barca para a travessia da alma até a outra margem. Hostes angélicas, entes queridos, seres de luz, todos eles a esperam do outro lado. A vida continua na eternidade. Leitmotiv ad eternum. E tudo cabe num coração que se abre, da alma que vem ao mundo se alargar do mundo e mais além.

Pois que o amor é o maior poder, é o que é eterno, é o que cura. Amor que é aceitação plena. Amor-caminho-da-vida, amor-ponte-para-o-infinito. Só o amor não se declina. Diante do qual a morte é tabu superado, a vida eterna é reencontrada.

Essa liturgia é feita da chama que não se pode apagar. Na aparente estação terminal, o invisível se mostra claro como a água, e nos vemos uns aos outros como somos. Aquilo que reúne o instante fatal à eternidade é o único sagrado - o AMOR. Tudo o mais é só passageiro, é poeira, é nada.


Mariana Montenegro
junho de 2020





sexta-feira, 12 de junho de 2020

Para minha mãe



Paula

Vi nuvens em linhas no céu. Formavam um caminho. Era noite de Corpus Christi. Era a sua travessia. 

Daqui de baixo, no terraço de casa, eu olhava a terra sabendo dela agora sem ti. 

Passou-me o assombro. Passou-me a tristeza. Passou-me a dor.

Mas ficou vívido, como nunca antes, o teu lastro de vida. Eu o segui e te reencontrei em formas alegres, em momentos de dor e de aleluia (dom e maldição da sensibilidade).

Diz-se que a diferença entre um louco e um santo é que um naufraga onde o outro navega.
(o louco como aquele que sofre de desajustamento e o santo como o que logra a sua diferença).

Mesmo caminhos rasteiros foram tortuosos e de difícil ajuste. No entanto, você, mulher corajosa e apaixonada, fincou raízes no estrangeiro, viajou colhendo experiências venturosas. 

- Guardo teu semblante radiante na Floresta Negra!

Você foi dinamite, mutante, vida em estado bruto.

Assim muito me ensinaste: com teus erros, malfeitos e destemperos.

Mas graças a eles desenvolvi capacidades; como empatia e compreensão. Hoje, para mim, nada do que é humano me é estranho.

Basta acolhermos uns aos outros nas nossas vulnerabilidades. Pois, aprendi, que uma pessoa que faz um mal é uma pessoa ferida.

Finalmente, quero dizer que te amo e o quanto te agradeço pela vida que me destes. 

Na sua partida afirmo a vida que flui como um rio, em ti e em mim, sem fim. 

E também sigo, com a lembrança dos teus cuidados, e da tua melhor gargalhada. 

Mariana Montenegro
12 de junho/2022

quinta-feira, 4 de junho de 2020

O sagrado na alma poética



Cecilia Meireles

“A perfeição inteira está em toda parte”
RabindranathTagore

A alma poética extrai o sumo sagrado da vida. Sua arte é insight, gestalt, epifania. Ela foge de atravessadores, passa longe dos mediadores do sagrado. Quer atravessar sem muleta ou corrimão, enlaçando a paisagem, espreitando o íntimo da vida. Sabe fazer milagres; salva afogados, devolve o sabor ao saber. Quando o assunto é o absoluto das coisas do céu, a alma poética no sobrado silencia. 

Ela as conhece por desconhecimento. Quando não silencia, canta. Decerto que a alegria para ela é o que mais se aproxima do sagrado do céu. Mas nem assim a existência rasteira lhe é estranha. Sua sensibilidade e horizontalidade dão-lhe compreensão empática. Ela dignifica o reles. Seu olhar torna vultosas as coisas mais desapreciadas.

Antena da Raça vive inventando, e fala do sagrado, florescendo. Assemelha-se ao jardineiro no seu ofício. Como na Metafísica das Rosas, de Machado de Assis: “No princípio era o jardineiro. E o jardineiro criou as Rosas. E tendo criado a chácara e o jardim, com todas as coisas que nele vivem para a glória e contemplação das Rosas”. 

Tem uma capacidade excepcional: consegue enxergar uma vasta área cinzenta no lusco-fusco. Diletante na experiência vertiginosa sem lastro ou sem farol. Já a vi, inclusive, na espuma das ondas tomando caixote, perdendo o fôlego vital. Mas das espumas ela nasce trazendo um novo alento. Sua quintessência é evocada nos “Cânticos” de Cecília Meireles, numa ressonância do sagrado:

“Não busques para lá/ O que é, és tu/ Em tudo/ A gota esteve na nuvem/ Na seiva/ No sangue/ Na terra/ E no rio que se abriu no mar/ E no mar que se coalhou em mundo/ Tu tiveste um destino assim/ Faze-te à imagem do mar/ Dá-te à sede das praias/ Dá-te à boca azul do céu/ Mas foge de novo à terra/ Mas não toques nas estrelas/ Volve de novo a ti/ Retoma-te.”

Mariana Montenegro
junho/2020