Por M_M
O TAO é o símbolo da inteireza.
A METANOIA é a transformação.
A INTEIREZA em movimento é tanto masculino
quanto feminino.
É jogo.
É criatividade.
É o fluir.
Escrever um livro é se lançar num abismo com a fé de possuir asas para alçar o voo. É um processo de concatenação de ideias, uma tecitura de nós de influências, uma reunião de vozes de pessoas lidas ou relacionadas que já me tocaram e atravessaram visceralmente a ponto de terem sobrevida na minha memória. Mas, sobretudo, escrever
um livro é uma metanoia da autora, um rito de passagem de uma etapa à outra, de
um nível de consciência a outro.
Nas palavras de Hermann Hesse, “o homem
não é uma forma fixa e duradoura; é antes um ensaio e uma transição”.Nesse
processo, deixo para trás um ego já obsoleto e animo um novo e atual. Não sou mais
a mesma de ontem, o que escrevo recentemente é diferente do que escrevi no
passado, ainda que me debruce sobre os mesmos assuntos. Por essa razão, não gosto de
me reler.
O grande poeta Jorge Luis Borges dizia que não guardava seus próprios
livros porque sempre queria reescrevê-los. Essa é a sensação que tenho, de que
o já feito não serve mais. O que permanece ao fim é o anseio de que tudo o que fiz
ou fui seja transformado e atualizado. Minhas
questões na presente etapa da vida são diferentes de outras mais remotas. Poderia
resumir todo esse pensamento com a poesia de Cecília Meireles:
“Renova-te.
Renasce em ti mesmo. Multiplica os teus olhos, para verem mais. Multiplica os
teus braços para semeares tudo. Destrói os olhos que tiverem visto. Cria
outros, para as visões novas. Destrói os braços que tiverem semeado, para se
esquecerem de colher. Sê sempre o mesmo. Sempre outro. Mas sempre alto. Sempre
longe. E dentro de tudo”.
Remanescer frente à realidade da mudança é dançar a vida entre espasmos de prazer e dor, entre
caminhos e bifurcações, processos de diferenciação e comunhão. Renovar-me é uma
necessidade, sem a qual, seco, murcho. Goethe dizia que “precisamos sempre
mudar, renovar-nos, rejuvenescer; caso contrário, endurecemos”. Essa necessidade de renovação me livra da sujeição e da modelagem externas, incita-me a constante invenção, e a assumir a autoria da minha própria existência.
Sendo o sujeito uma invenção recente, pois nos tempos antigos e medievais havia no lugar poderes cósmicos e coletivos, o ser humano é uma história em potencial a ser contada. A irrupção da individualidade brota da semente humana, de floração efêmera, mas cujo rizoma persiste perenemente. No laboratório vivo da existência, para renascer preciso
aceitar o desfecho de um ciclo e a abertura de um novo. Tenho integradas em mim
as épocas passadas - agora reconfiguradas. Sigo sendo sempre a mesma e sempre
outras.